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Filas de Espera (do livro Os Bípedes também deixam rastros) Robinson tinha o emprego idealizado por todos os postulantes à área comercial: era gerente de suprimentos de uma estatal. Planejava, realizava e controlava a compra de tudo, de pregos a turbinas, de enlatados para a cantina a fraldas para os bebês dos funcionários. Era bajulado, adulado, imitado. Na sua mesa, empilhavam-se, implorando uma arrumação, dezenas de folhetos, prospectos e propostas, mas a secretária não precisava se preocupar: a desordem era deliberada, como prova cabal de que o seu tempo era escasso, face às excessivas e pesadas responsabilidades do cargo. Diariamente, quando chegava ao escritório, já havia uma fila de espera diante de sua porta. Compunha-se de representantes, vendedores, artesãos, microempresários e fornecedores, todos simpáticos, falantes e dispostos a trocar informações e compartilhar com os novos amigos episódios semelhantes de longas esperas. Havia dois tipos de esperançosos sentados no relativo conforto da antessala: os que apostavam na sua boa estrela, satisfeitos por terem vencido a resistência da secretária e outros, com hora marcada, aguardando ser recebidos pelo próprio gerente. Aparentemente, ninguém se importava de esperar horas a fio, sem o oferecimento de cafezinho ou água gelada, reservados somente àqueles que estivessem sentados no "santuário", conversando com o ilustríssimo Sr. Robinson Vicentini. De vez em quando, uma pessoa decidia ir embora, invocando outros compromissos e vociferando contra a empresa, pouco interessada, pelo visto, naqueles que tinham artigos e produtos mais modestos para oferecer. De meia em meia hora, a secretária entrava silenciosamente na sala. Sussurrava alguma coisa no ouvido distraído do chefe que abreviava a conversa e chamava, para daí a 10 minutos, outra pessoa que não era necessariamente recebida de acordo com a agenda ou ordem de chegada, mas, em prosseguimento aos interesses da própria gerência de suprimentos. Enquanto "meia-horas" de espera passavam velozmente, o compradorão e a visita do momento trocavam piadas e histórias, riam, consultavam catálogos, cotejavam preços, tomavam licor e cafezinho. Quando o representante já estava exausto, desanimado e sem saliva, o gerente fazia o pedido, em superioridade de condições, sentindo-se como se estivesse na poltrona de sua casa, saboreando um White Horse importado. Filas! A fila da padaria quando se aguarda a fornada de pão fresquinho e se esnoba os pobres pães, velhos de uma hora atrás! A fila em frente aos caixas do supermercado, quando sempre aparece alguém "com a comida no fogo", tentando justificar o pedido de passar para a cabeceira da pista. As filas dos bancos em que se critica os serviços, a morosidade, a roupa dos funcionários, até chegar ao caixa, finalmente, quando o cliente entabula uma interminável conversa com o responsável pelo dinheiro da agência. ! E as filas do antigo regime comunista europeu quando todos — homens, crianças e mulheres ― saiam de casa com sacos e sacolas, na eventualidade de descobrir uma fila, qualquer uma, para comprar um produto que não havia no mercado! Há outras esperas, não necessariamente em filas. Como agir quando, ao tentar vender uma ideia, depara-se com o muro de indiferença do dono da situação? Conheço um administrador público que, ao chegar a Brasília, esperou duas intermináveis horas para ser recebido pelo diretor de uma coligada com quem marcara uma reunião. Foi informado de que não havia tempo disponível para a reunião. Depois de reclamar e avisar à secretária que levaria essa desconsideração à televisão, a autoridade resolveu lhe abrir as portas de seu gabinete. Sobre a sua mesa de 2 metros, com tampo de vidro grosso, nada havia: nem um documento, pasta ou recado. Quanto ao interfone, coitado, só era usado para pedir café. A reunião durou dois minutos, tempo suficiente para expor um projeto inteiro, quando então o anfitrião se levantou abruptamente e com um sonoro "bom", deu a entrevista por encerada. Quando me contaram essa história, lembrei-me da experiência que tive numa fábrica de artefatos de plástico. Para uma entrevista, às 11:00 no distante subúrbio de Piedade, no Rio de Janeiro, tomei dois ônibus e andei léguas ao longo do muro amarelo que circunda a empresa. Culpa minha por avaliar mal a distância e não estar disposta a enfrentar os sacolejos de um táxi, provavelmente sem ar refrigerado! Esbaforida, suada, cheguei cedo, às 10:20. Esperei no sol, "tranqüila", para que duas pessoas na minha frente fossem atendidas. A minha calma se evaporou quando a telefonista-segurança-recepcionista me avisou, entre as grades estreitas de sua janela-prisão, necessárias devido à perigosa vizinhança de marginais. - O Gerente não vai recebê-la; precisou se ausentar - Como assim, ele marcou comigo! - Sinto muito, saiu. - Saiu? E a secretária? Quero falar com ela! - Não veio trabalhar hoje. - Essa não! Como fico? Preciso falar com outro gerente! Atenciosa, ela me passou para outro gerente, mas permaneceu atenta, com a cabeça inclinada para ouvir melhor a conversa: - Pois não. - Marquei uma reunião com Sr. João da Silva, que não se encontra. Sou microempresária de recursos humanos e gostaria de ser atendida porque já estou passando mal de calor. - Eu sou apenas o gerente de benefícios. Qual é o assunto para poder encaminhá-la ao gerente da área, não acredito que se relacione com o meu setor. - Assunto? Não posso falar agora, não consigo falar entre as grades! Por favor, talvez o senhor mesmo possa me receber, não aguento mais ficar em pé. Só se a senhora me disser o assunto! Como não chegamos a uma conclusão, o inabalável gerente de benefícios (que soube depois ser "uma flor de pessoa") desligou o interfone no meu rosto. Era uma demonstração inequívoca de como não deve ser tratado o público. Aborrecida, desapontada, conclui que este era o homem certo no lugar errado por que, imagino, teria sucesso total, como homem e profissional, se exercesse o cargo de gerente do departamento de “Deixa Pra Lá, Que Não É Comigo”.
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