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Fomos Colegas De Berçário* A vida inteira Agapito foi considerado um excelente engenheiro de telecomunicações. Quando se desligou das Forças Armadas, estava certo de que não teria problemas em conseguir colocação em alguma empresa privada, mesmo aos 50 anos, em vista da sua vasta experiência com tecnologia de ponta. Habituado à disciplina militar, no dia seguinte já estava examinando os classificados, tendo já separado o melhor terno para as dezenas de entrevistas para as quais, sem dúvida, seria convidado..
Sorrindo, estava satisfeito com a sua capacidade de prever um futuro tranqüilo. Com o passar do tempo, à medida que os dias se transformavam em semanas e meses, sem receber nenhuma resposta às cartas capeando o seu currículo sempre revisto e corrigido e com a poupança caindo, caindo vertiginosamente, foi ficando desanimado e inquieto. A esposa, fiel companheira de estrada, mãe de seus quatros filhos, o animava: “0 que é isso, Agapito? Não pode desanimar! Não desista de procurar um emprego, você tem valor, só um louco não vê!”
Pensou refletiu e como não me conhecia naquela época, quando poderia lhe dar conselhos práticos de como evitar os pseudo amigos que se afastam quando são implorados a fazer alguma recomendação, procurou os antigos colegas de trabalho, aqueles mesmos com quem jogava poker nos fins de semana. 0ra, os homens apregoam a sua objetividade e as mulheres fantasiam a realidade. Por isso, admitiu que estava navegando em mares turbulentos e relatou as suas dificuldades em minúcias (pecado imperdoável!). Imaginou que seria socorrido com, pelo menos, uma boa sugestão. De mais a mais, as esposas se conheciam, faziam compras juntas e tagarelavam horas ao telefone, trocando figurinhas sobre a novela das oito.
Conseguiu uma entrevista na empresa onde um de seus amigos tinha uma posição de destaque. Foi recebido com surpresa e fingida consternação. O executivo conseguiu disfarçar o receio, infundado, que as pessoas costumam ter com relação àqueles que se aproveitam de seu prestígio para pedir um emprego. É uma grande bobagem; indicar não é o mesmo que recomendar e, mesmo que fosse, sempre se pode avaliar, nas entrevistas, se o candidato recomendado por um dos gerentes da empresa possui a experiência e postura de um bom profissional ou se é um “serial killer”.
A princípio simpática, a conversa entre os “amigos” evoluiu para uma aspereza inesperada, unilateral, sem que houvesse uma explicação, uma respiração mais pausada ou a oportunidade de um ligeiro comentário do postulante “a qualquer coisa”: A amizade estremeceu e foi detonada naquela hora mesmo, porque as palavras foram arrogantes e jamais serão esquecidas: “Você não quer mais ser milico? Que idéia! E veio chorar no meu ombro? Acho que você está de olho em meu cargo, sei que fez mais cursos e está mais preparado do que eu!”
Em certos casos, os amigos de infância devem ser “desenterrados”, como sombras do passado que ora nos perseguem, ora nos animam. Foi o que fiz quando, seguro, da minha experiência e talento de jornalista, fluente em quatro idiomas e achando-me capaz de transformar o mundo, visitei uma agência de publicidade, instalada numa mansão com piscina no Bairro Peixoto, no Rio de Janeiro. Fui recebida pelo presidente da empresa que me tratou amavelmente e leu o currículo com atenção. Sentindo em meus olhos um lampejo de genialidade que, sinceramente, nunca pensei que fosse visível, chamou um diretor e lhe comunicou que esta simpática cronista seria a nova contratada da agência.
Saímos juntos da sala, o diretor e eu. Comportei-me igualzinho àquele que não admite que três inocentes caipirinhas podem amolecer as suas pernas; andei com passos mecânicos, sentindo que o chão se distanciava velozmente dos meus pés, tamanha a felicidade, acoplada à incredulidade de vir a trabalhar em Publicidade ― a minha opção na Faculdade de Comunicação.
Na sua sala, o diretor afastou algumas pastas da mesa cheia de papéis, pediu dois cafezinhos à copa e perguntou, aparentemente sem nenhuma intenção malévola: “Há quanto tempo você conhece o Emiliano?” Inocentemente, ao invés de comentar que as famílias se conheciam há 500 anos, respondi que acabara de conhecê-lo. Não houve reação, mas senti um frio na espinha quando ele comentou, por alto, displicentemente, que a esposa era fluente em 48 idiomas estrangeiros. Com um sorriso, explicou que não podia mais conversar, tinha que ir uma reunião e prometeu que me chamaria para acertar as condições de trabalho, o que nunca aconteceu.
Os desapontamentos marcam. Cresci, apanhei, venci, mas não esqueci. Muitos anos e algumas rugas depois, conversei novamente com o presidente daquela agência – agora instalada na Barra, com ótima acessibilidade, clientes importantes e patrocinador de grandes eventos culturais. Não resisti - sou humana - e relatei o episódio atravessado na garganta há tanto tempo. Aí, ele comentou que aquele diretor montou sua própria agência de publicidade e acrescentou, com simplicidade: “Que pena, por que não me ligou naquela época?”. Quer dizer: teria conhecido o céu se tivesse dito àquele diretor que o presidente e eu éramos bons “colegas de berçário". Teria mais credibilidade do que qualquer currículo, diploma ou certificado de bons antecedentes.
* Extraído do livro inédito "0s Bípedes Também Deixam Rastros"
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