Lilly Paes Barreto

Gritos No Vazio

0 ônibus parou na R. Marques de Abrantes. 0 motorista deu partida somente depois que subiu no carro um homem  amparando uma mulher jovem, de seus 27 anos, com os ossos à mostra, desdentada, que mal conseguia andar.

 

Acomodaram-se num banco com dificuldade, porque a mulher gritava e gemia sem parar: parece que havia caído

na rua e quebrado uma costela. 0 homem amparava a sua companheira, mãe do seu filho de 9 anos, assim disse, sem prestar atenção às  sacola e mochila em que o seu

cachorro preto, pequeno, magro, estava encostado.  . 

 

0s poucos passageiros naquela noite de sábado, impressionados com a situação, perguntaram de onde vinham.  “Do UPA, perto do metrô. Tiraram uma chapa, disseram que não tinham ambulância e que deveríamos ir

ao Miguel Couto. Nem um copo de água nos deram”.

 

0 ônibus sacolejava. Em cada freada, em cada parada,  Cristiane – era o nome da mulher  - gritava mais. “Moço”, gritou ao motorista, “falta muito ainda?” A trocadora, mulher forte e segura, respondeu: “calma, daqui a pouco vamos parar exatamente em frente ao hospital, o motorista não pode correr mais do que isso”.

 

Subiu um casal de namorados – que diferença! Eram jovens também, mas  alegres, bem vestidos e alimentados. Sorridente, o  rapaz quis abraçar a namorada mas o seu

gesto parou no ar ao ouvir os gritos desesperados da Cristiane, dois bancos atrás.

 

Durou uma eternidade, mas o ônibus finalmente chegou ao destino. 0 homem desceu com a doente nos braços, o rapaz desceu também e prendeu o pobre cachorro às alças da  sacola e da mochila. Feito isso, voltou ao ônibus, enquanto  o homem levava a sua companheira ao pronto socorro.

 

Deitados à porta do hospital, vários  moradores de rua dormiam, acomodados em  sua “camas” costumeiras, cobertos de trapos e jornais. Na porta da frente, um

grupo preocupado aguardava noticias de seus familiares

que estavam sendo atendidos.  Já o cachorro, coitado,

estava mais morto do que vivo. Não levantava a cabeça,

não latia, não gemia, não respondia aos afagos; É, cachorro de pobre tem outro comportamento!. .

 

0 rapaz foi direcionado à cabine com grades para informar

o seu nome, endereço, essas coisas. Não esperava a

pergunta, já dizia o telefone de Piabetá e o nome completo

da companheira. Quem estava perto, perguntou-se “Como, Piabetá, na Zona 0este? 0 que ele estaria fazendo lá, no

Leblon. 

 

Com o formulário preenchido nas mãos e a informação de

que estava procurando trabalho, o homem voltou à ortopedia. “Pelo menos”, pensou”, um doutor vai fazer alguma coisa pela Cristiane”. Que engano! Minutos depois, saía o casal, com radiografias na mão, uma receita para comprar um analgésico e a sugestão de procurar o Hospital Getúlio Vargas. 0 homem estava desesperado – provavelmente sem dinheiro, com fome e

sede, com a companheira revoltada, falando com dureza

mas, é verdade, se arrastando pela rua, com dores pelo

corpo, segurando as costas machucadas. 

 

0s hospitais da Zona Sul do Rio de Janeiro não aceitam

mais pacientes de outro bairros. Faltam médicos e

remédios até para a população do bairro! Agora, é injustificável e desumano mandar uma acidentada para um hospital distante, que não sabe onde fica, nem como chegar. Só faltava tentar procurar uma farmácia, algumas  quadras mais distante, e pagar o analgésico,  provavelmente sob o olhar desconfiado do balconista.

 

Atenção pobres, doentes e desamparados que dormem na

rua e comem quando e o que acham: procurem sobreviver porque ninguém vai olhar por vocês; os governantes só têm sorriso de campanha, idéias fantásticas de novos projetos arquitetônicos e soluções “eficientes” para toda a

população. Já os prontos socorros, sabem como é, são sempre superlotados. 

                                                                                       


Ele está sempre ensinando. Fizemos uma gravação; todos tocaram violão e cantaram, inclusive o “houseboy”.

Quando ouvimos a gravação ela, suavemente, silenciosamente, mostrou a ele as posições certas, enquanto ele acompanhava as explicações, sorrindo e abanando a cabeça, ele tinha aprendido a tocar violão sozinho.

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2 O presente do Dia dos Pais foi entregue na semana seguinte. E os olhos dos dois brilhavam de alegria.

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3; Na fila do cinema, entre as moças de mini-saias e rapazes de bermudão e camiseta, uma jovem, de perna engessada, conversava animadamente. Na perna boa, usava uma bota. Parecia que estava de botas brancas.. 

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4. Não se conformada com o fim do namoro; Á noite, chora no travesseiro.

Durante o dia, depois do trabalho, vai com passear com uma amiga, na praia de Icaraí, Niterói. Vestida e penteada como se fosse para uma festa e o namorado fosse busca-la. Só para ser vista...

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5. É incrível como o ambiente muda as pessoas. No escritório, um rapaz anuncia o divórcio para se casar com uma colega. Todos o compreendem e apóiam. Seria que essa solidariedade existiria se um dos colegas – qualquer um – fosse amigo pessoal da esposa abandonada, com dois filhos?

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6. Quando as moças passaram, na algazarra da juventude, o corcunda olhou bem, por cima dos óculos, e sorriu. Uma deles também era corcunda ...

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7. Ser casado e pai não é sinônimo de maturidade. O meu amigo, por exemplo, achou interessante colocar, na janela da sua sala, a radiografia dos pulmões de sua esposa. .

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8. A alegria dos americanos em carregar as sacas de papel pardo com garrafas dentro. As inevitáveis piadas e olhares de cumplicidade dos outros americanos.

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9; “Obrigado por você ser a minha esposinha”

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10. Em Minas Gerais, numa pequena cidade chamado Baependi, venera-se uma senhora – Nhá Chica – que em vida foi muito boa para os pobres apesar da sua própria pobreza. Há muitas pessoas que fazem promessas a ela e o dinheiro ajuda manter um orfanato. Um fato curioso é que o Banco do Brasil mantém uma conta para Nhá Chica.

 

11. 0 caixa do banco, com o  cenho franzido e um sorriso amargo na boca, banco não gostou de receber 50 notas de 1 cruzado. Pois, talvez como “vingança”, deu o troco de um cruzeiros em notas horrorosas de 20...

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2. Liguei para a Seção de Cobranças do minha administradora de cartão de crédito, disposta a discutir.

www.lillypaesbarreto.com.br
(x) lillyleonie@terra.com.br 
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de "Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo" (Litteris)

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