Lilly Paes Barreto

Mais Um Don Juan

0s flertes, "cantadas" e galanteios são normais no ambiente  de  trabalho, onde se passa mais tempo do que em casa. Gente, o que se faz na hora do cafezinho, nem Eros imaginaria! Agora, descobriram que tentativas de aproximação - cantadas, flertes, toques e tantos outros gestos e símbolos fálicos, podem ser considerados pecados, digo, assédios sexuais. Acredita-se que, nesses casos,  bastará a vítima se queixar na Justiça para ganhar a causa contra o opressor. 0s nossos juristas,  certamente. não passam noites em claro revendo as nuances desse polêmico assunto, mas acredito que analisem a diferença entre um assédio e outros contatos epidérmicos. 

 

Nas fábricas e em muitos escritórios, podem surgir  equívocos: o chefe pensar que a funcionária quer, mas não sabe como, coitada, expressar os seus desejos carnais.  0utros pensam que, sendo chefes, podem forçar uma subalterna a ter um relacionamento íntimo, por que, afinal, eles são proprietários das funcionárias  (escravas?),não é mesmo?   

A maioria das mulheres não aceita a atitude daquelas que, achando que não têm  chance de ser promovidas, preferem ter um “affair” com o chefe, para “facilitar” as coisas. Quanto aos homens, muitos vão longe demais em suas suposições e interpretações, por não entenderem a diferença entre uma mulher que não quer ‘aquilo” de   forma alguma e outras, que querem,  mas não assim, desesperadamente, “para ontem”


0lhar com malícia, sorrir com duplo sentido, admirar, fingir que se procura uma pasta para flertar melhor, isso é ótimo e faz um bem fantástico para o nosso ego e saúde mental. E como pode-se saber se há reciprocidade se a paquerada desdenha o   paquerador? As mulheres adoram receber galanteios, desde que feitas com humor e elegância. Ainda bem que algumas empresas já admitem o fato insofirmável de que colegas se apaixonam, se juntam ou casam, mas querem permanecer trabalhando no mesmo lugar.
 

0s chefes e colegas devem saber quem podem convidar para um programa picante e quem devem respeitar. Conheci um arquiteto que tinha um escritório pequeno no Leblon, no Rio de Janeiro. Empregava uma secretária, na faixa dos 50 anos, como ele. Gordo, usando dentadura, julgava-se um Apolo por causa de seu sorriso.  É verdade, algumas clientes caíam a seus pés, mas a secretária não se impressionava. Pelo contrário, achava as suas insinuações bastante desagradáveis. Mal sucedido nas tentativas de um contato íntimo, demitiu a secretária, alegando incompetência em administrar o seu dinheiro. Lamentavelmente, só chegou a essa conclusão depois de quatro anos de bons serviços.

 

Já Stefan Ferenko,  principal execu­tivo de uma indústria de produtos de limpeza, era meu conhecido da primeira juventude. Integrávamos um grupo de estudantes brasileiros e estrangeiros que fazia montanhismo e se reunia sempre nas festas. Húngaro de nascimento, espadaúdo, louro de olhos verdes, Stefan era um verdadeiro “colírio” e sabia que impressionava as  meninas de então.

 

Nunca mais nos vimos. Soube de seu trabalho e determinação em se tornar o número 1 da empresa, onde  havia ingressado como Chefe dos Transportes. Com obstinação.   criatividade, e trabalho duro, subiu  rapidamente e. em alguns anos, conseguiu adquirir o controle acionário da empresa, tornando-se presidente. Um dia, marquei uma reunião para conhecê-lo melhor, na qualidade de headhunter. Sentamo-nos  frente à frente, como duas pessoas que se conhecem, mas têm pouco em comum. É pena, mas ele não entendeu o espírito da coisa; não acreditou que eu tivesse uma consultoria.

 

Contrariamente a outros executivos, não me apresentou a fábrica. Mostrou-se frio e impessoal, tentando descobrir os meus motivos verdadeiros em visitá-lo.Enquanto eu estava saboreando um cafezinho,  Stefan ”atacou”, talvez para recordar o sucesso que fazia antigamente, com seu porte de atleta, sotaque estrangeiro e olhos claros:

 

­E você, Lilly, é do tipo que freqúenta motéis?

 

Quase me engasgando. respondi:

 

- O que você acha?

- Acho que sim.

- Pois você está enganado.

 

E a conversa passou para outros assuntos, mas era óbvio o desapontamento do meu amigo que devia estar imaginando uma pequena aventura - cômoda, direta e sem cobranças. 0 tempo foi passando. Através de amigos comuns, sempre ouvia falar do Ferenko e da sua arrogância em considerar-se o único ser pensante entre milhares de executantes. Finalmente, prevaleceu o meu interesse profissional. Mandei uma carta formal, que ele acusou, numa voz cansada, sem força, dando-me a impressão de que estava falando com uma alma do outro mundo que se materializara em empresário. Por um instante, pensei que estivesse doente. Ledo engano, pois o Don Juan se recuperou rapidamente e, mais animado, proferiu as seguintes pérolas:

 

­ - Soube que você ficou viúva.

­ - É verdade. Estou procurando me adaptar à nova si­tuação.

 ­- Viúva alegre ou viúva triste?

 

Sugeri que falássemos da empresa dele. Era muito mais lógico e emocionante.
 

lillyleonie@terra.com.br
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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