Lilly Paes Barreto

Nepotismo E Linha De Sucessão

As  vezes, dá certo. Geralmente não.  Uns dizem: "melhor em­pregar parentes do que pagar a estranhos". Outros, mais desinibidos, comentam abertamente: "Parentes são  mais confiá­veis e.

pensando bem, por que não ajudaria a minha família?” É  um ponto de vista do qual discordo. Com raras ex­ceções, as empresas familiares têm mais histórias de insucessos do que outras, que empregam profissionais.

 

Mas é cômico usar o tratamento formal no es­critório ou na fábrica, enquanto que, em casa, as referên­cias são a papai, titia ou mamãe. Pode-se fazer um business plan coerente, sob a ótica da realidade da empresa, quando se sabe que o assunto será discutido em casa e se aceitará o ponto de vista de quem tem posição mais elevada na hierarquia familiar?

 

A "última" soube  hoje. 0 dono de uma indústria têxtil queria proporcionar um ganha-pão ao seu filho (Gerente Administrativo), filha (Tesoureira), caçula (Gerente Financeiro), primos, tios e outros pa­rentes, consanguineos e colaterais: confiava mais nos parentes do que naqueles que estudaram e foram treinados para carreiras nas empresas. Para fechar o quadro, o proprietário nomeou a esposa, sem formação superior,  para a posição de Gerente de Pessoal.

 

Satisfeita com as novas incumbências, a  nova gerente, que havia feito um curso rápido de astrologia, tratou, primeiro, de renovar o seu guarda roupa para se apresentar bem como executiva. Uma vez instalada em sala própria, com uma bonita vista para o Corcovado, mesa enorme de trabalho e  plaqueta com o seu nome em letras douradas, passou a contratar novos fun­cionários mediante estudo dos seus mapas astrais. Ao final do dia de trabalho, a astróloga desfilava

pelas salas, ar­rumadíssima e sorridente, cumprimentando os seus "súditos" um a um

(os funcionários contratados por ela).

 

Por outro lado, fala-se muito em sucessão.  Os fundadores, embora não queiram verdadeiramente passar o bastão para a segunda geração, acabam optando por essa  al­ternativa. "Afinal",

refletem, "nossos bens, construídos com tanto sacrifício, não podem ser administrados por

estranhos". Pode ser, mas são ra­ras as vezes em que a segunda geração  é preparada para conhecer a estrutura e funcionamento de todos os departamentos da empresa..

 

A passagem de comando é sempre traumática. Enquanto os grandes executivos “fazem” os seus sucessores, outros empresários preferem contratar profissionais de fora da família para  dirigir suas em­presas. E o que dizer dos “enganadores” que, aparentemente, se desligam da empresa?  Tudo

o o que  eles  querem é nomear o sucessor e passar a curtir a vida. Quanto despojamento e dignidade! Através de palavras, piadinhas e atitudes posteriores, demonstram claramente que pretendem morrer nas empresas que fundaram.

 

Eu era  professora de inglês do Presidente de uma empresa de materiais de construção. Por vocação, treinamento e liderança,  aliados ao desinteresse dos irmãos, o meu aluno tinha se tornado o número 1 da empresa. Tinha independência para tomar qualquer decisão, especialmente agora que o pai passara  à Presidência do Conselho de Administração, com o objetivo de se dedicar mais às suas fazendas de gado. 

 

A empresa se expandia rapidamente e novas linhas de produtos foram incorporadas às existentes. Nessa fase, escritórios e lojas foram comprados, assim como máquinas e computadores. 0s funcionários e vendedores, satisfeitos, comentavam o programa de treinamento e as recompensas por merecimento. Apesar das crise (por que "crise" sempre houve no Brasil) e do pessimismo ge­ral, os negócios  iam bem.

 

Aconteceu há "alguns" anos, mas não esqueci mais. Um dia, quando a aula estava terminando,

pedi a Deus que abrisse um buraco no chão para sumir rapidamente. Não queria continuar a ser testemunha da chegada do pai que, irrompendo pela sala como um índio xavante,  disse:

 

-     0 que é isso? O que é  isso, estou perguntando.

-     Um computador.

-     Para que serve?

 -     0ra. pai, deixe-me trabalhar. Não vê  que facilita o nosso conhecimento do estoque?

-     Eu nunca precisei disso para dirigir a empresa. Você gastou o MEU dinheiro para comprar essa porcaria!

 

Fiz um esforço hercúleo para fingir que não estava vendo nada, mas a imagem da descompostura paterna, motivada por despeito, não saiu mais das minhas retinas.

lillyleonie@terra.com.br

Consultora, Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental.  

Autora de "Como se Livrar de Um Executivo Incômodo"

* Administradora de Empresas

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