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O "BOLHA" (do livro Os Bípedes também deixam rastros) Quando o conheci, Dauster Limoeiro estava desesperado: suas economias tinham se esgotado; ele estava no mercado, sem perspectivas profissionais. De estatura mediana, magro, a sua fisionomia não possuía nenhum traço marcante de que as pessoas se lembrassem. Gostava de usar camisas esporte listradas, embora na fotografia, tamanho passaporte, que acompanhava o currículo, se apresentasse de “uniforme” como manda o figurino, ou seja, de terno, gravata, camisa social e ar de seriedade. Tinha tudo para ser um profissional brilhante. Formado em administração de empresas por uma universidade paulista conceituada, com cursos de extensão de marketing contava com referências de executivos conceituados. Todos podiam confirmar sua atuação impecável em comércio internacional, quando analisava o mercado de alimentos, prospectava possíveis clientes e negociava as compras, possibilitando bons negócios aos seus empregadores. Quando estava no topo, em seu sólido cargo de gerente de vendas, não era considerado o “bolha” de hoje, mas tudo muda, assim como a visão de como as próprias pessoas se situam no mundo. Quando são pessimistas, freqüentemente sofrem de depressão, sem ver saída ou solução, para seus problemas. A empresa em que Dauster trabalhava foi terceirizada e ele perdeu o emprego. No início, trabalhou por conta própria, dando consultoria a “trading companies”. Participou de feiras de negócios. Fez algumas intermediações e ganhou um bom dinheiro mas, quando o sonho dourado de não ter patrão fracassou, ele começou a procurar um novo emprego. No fundo, era um homem inseguro que não acreditava em si próprio e atribuía os seus problemas profissionais à dificuldade de relacionamento com a família. Pudera! Solteiro, morava ainda com os pais e quando a mãe atendia o telefone, antes de passar a ligação, perguntava, curiosa, onde, como e para quando era o emprego oferecido, ocupando todos os espaços da eventual conversa do filho. Lembra a jornalista que, ao entrevistar um cientista, coloca, na pergunta, complexa e longa, todas as prováveis respostas como se quisesse demonstrar ao entrevistado que fez o “dever de casa” ou, talvez, que tem um nível cultural diferenciado dos demais repórteres. O pai de Dauster, dono de uma fábrica de médio porte de compotas de pessêgos e ameixas, resolvera fazer uma doação em vida, transferindo, para cada filho, exatamente 50% de suas ações. Seria uma verdadeira lição de boa prática administrativa, não fosse pelo fato de que só tinha dois filhos que viviam se degladiando desde pequenos, quando o mais bonitinho e simpático ganhava mais presentes. Adultos, e com o irmão “melhor” trabalhando na fábrica em regime integral, a fábrica não fazia bons negócios porque, além da alta dos juros que acabava com qualquer aporte de capital, o staff vivia contrafeito com as ordens díspares de duas cabeças pensantes que, ainda por cima, trabalhavam em horários diferentes. Dauster queria uma recolocação através da minha consultoria de recursos humanos. De tanto ouvir e ler o currículo, consegui decorá-lo e podia dispensar outras informações. Não houve jeito! Com o passar do tempo, a história foi enriquecida de novos fatos. Ora era o irmão que enfrentava dificuldades na empresa, mas desdenhava qualquer sugestão sensata de como sair do vermelho. Outras vezes, o tema principal da conversa era representado pela imagem do pai, que apoiava, sem constrangimento o outro filho. Lamentei tanta infelicidade e, mais, fiquei impressionada quando soube que a namorada, mãe de uma menina de oito anos, sem pai, preferia criar a filha sozinha do que se casar com ele, embora confessasse às amigas que era “bom demais de cama". Eu ouvia pacientemente essas histórias e até lacrimejava junto mas, calma, há limites e como não sou psicanalista, nem tenho pretensão a tanto, me cansei depois de umas cinco conversas sussurradas no ouvido. Devido as suas constantes lamentações, o meu amigo tornara-se um “bolha”, uma “mala”. É possível que as pessoas mimoseadas com esses adjetivos tenham algo diferente a dizer e, com isso, atraiam críticas dos ouvintes. Talvez revelem sua insegurança, sem eco nos ouvidos desatentos, quando contam, recontam e reinventam velhas histórias de sucesso que, pela repetição, não interessam mais a ninguém. Existe também a possibilidade, bastante plausível, de o “chato” ser considerado assim devido às suas mãos geladas, como as de um defunto ou a um perfume peculiar, acontece, que desagrada aos interlocutores que, para não magoar, preferem se afastar. Reconheço que tenho muitos defeitos incorrigíveis e já desisti de tentar corrigí-los mas, o meu candidato era muito cansativo. Geralmente lamentava o seu fracasso e dizia que batia às portas das empresas, inutilmente, sem resposta, sem esperança. É possível que tenha percebido o meu desencanto ou, quem sabe, conseguiu se reerguer por conta própria, porque não o vejo há dois anos e o que me aflora à memória é o seu choro constante no meu ombro magro e o pedido, insistente, reiterado, desesperado, de não ser esquecido
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