Lilly Paes Barreto

O "Móveis E Utensílios"

­­Não quero me tornar o ’’Móveis e Utensílios’’ da empresa, mas por enquanto estou satisfeito.
- Só pedi a reunião porque queria conhecê-lo.
- Acredito, mas você é uma headhunter e, sinceramente, não estou interessado em sair por aí procurando outras oportunidades.

Na verdade, a minha única intenção era apresentar a consul­toria, para vir a colaborar no processo de recrutamento e seleção de novos quadros. Ao invés, fui mimoseada pelo Gerente Administrativo com um  rico monólogo: "Você viu a vista? Que mara­vilha, hein! Vê-se claramente o Pão de Açúcar, todo o Parque do Fla­mengo e, lá longe, a Pedra da Gávea. Em que outra empresa poderei encontrar uma vista tão bonita, justamente no centro da cidade? E a minha mesa, que tal? 0val, sem gavetas, assim como eu gosto. A diretoria não sabe mais o que fazer para me agradar”.

Diante da assertiva de tanta felicidade, recolhi-me à minha insignificância. . Não fiz nenhum negócio com aquela indústria de componentes para computadores, mas também nunca mais contatei aquele executivo linguarudo. Alguns anos de­pois, a filial Brasil foi vendida para os próprios funcionários, a transação deu errado por falta de experiência dos novos donos e a empresa acabou falindo. 0 staff inteiro foi demitido, obviamente, e o ex-feliz gerente lembrou-se que era dono de um terreno em Mendes e resolveu trabalhar... "na roça".

É verdade que isso aconteceu em outro século, antes da atual crise mundial mas, pergunto-me, será que esse foi um caso típicode desconhecimento dos problemas da empresa ? Talvez um apego excessivo a um escritório agradável? As vezes, para se valorizar, o executivo comenta que trabalha feliz e tem o apoio do conselho de administração. É uma atitude excessivamente otimista que pode resultar na perda de uma nova oportunidade de trabalho. Por isso, ao tomar uma decisão, o executivo deve avaliar corrretamente a empresa e o mercado, pesar as alternativas e, procurar se conhecer, sabendo-se incapaz de largar a proximidade da praia para viver no... Tibet.

Já fui coordenadora, para todo o Brasil, de um programa internacional de desenvolvimento comunitário. Tinha secretária, verba e autonomia para viajar e representar o órgão. Embora prestigiada, com prêmios em dinheiro, não consegui ter uma sala com janela para a paisagem de Botafogo. Superei a decepção, mas reconheço que é extremamente produtivo trabalhar num ambiente bonito: rende-se mais e o clima empresarial é otimizado. Já que não se pode fazer um acerto com o Departamento de Serviços Gerais paraderrubar as paredes do escritório, o correto é se conformar e procurar trabalhar com satisfação.

 lillyleonie@terra.com.br

www.lillypaesbarreto.com.br

Consultora, Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental.

Autora de "Como se Livrar de Um Executivo Incômodo" 

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