Lilly Paes Barreto

O Professor E Seus Alunos

Quando se encontram, os antigos colegas – de ginásio, faculdade ou do antigo primário - comentam, rindo muito, da atitude “intolerante” de alguns professores, irremovíveis na determinação de não aumentar em meio ponto a nota de alguns alunos desesperados, já arrancando os cabelos, que imploram por esse ato de comiseração.

0utros, anos depois, ainda se lembram do professor ranzinza que não abonava faltas, nem procurava entender que fazer as pazes  com a namorada, naquele dia mesmo, era uma questão de vida ou morte, mesmo que perdesse a prova mais importante do ano.

É, mas o professor – ser humanos como os outros – também se lembra dos alunos que amargaram a sua vida, pelos questionamentos e indagações que, aparentemente são próprias da idade, mas cujo objetivo primordial era azucrinar a sua paciência e dignidade. Era como se ele não tivesse valor só porque ganhava menos do que os seus pais.

Ao longo dos anos, todos, alunos e professores, ampliaram os seus conhecimentos, experiência e relacionamentos. Na caminhada pela vida, não se viram mais, escravizados pelo relógio, a “maledetta” agenda e os compromissos que parecem, mas não são imprescindíveis à qualidade de vida.   

Robotizados como somos, presos ao celular através de fios invisíveis, mesmo no elevador, com o percurso estimado em três segundos, os olhos fixos em coisa nenhuma, dificilmente paramos para ouvir o outro ou apreciar a natureza. Corremos – para onde? Talvez para tentar ser um milionário em dólares em questão de dias.

José Messias (não o Verdadeiro) não tinha como esquecer. Ele se apoiava diariamente na didática que aprendera na faculdade há muito tempo, quando ainda se preparava para ser professor de português: não dar jamais as costas, não olhar o relógio (pode vi a ser imitado pelos alunos, geralmente dispersos), não usar jamais meias furadas ou perfume forte, que briga com o desodorante e a loção após barba e o mais importante, não ensinar nada, mas nada mesmo, sem ter certeza.

Naquele dia, o professor estava especialmente motivado. Iniciaria um curso de atualização da ortografia para um grupo de alunos novos. Preparou aula, algumas piadas para aliviar a tensão e cansaço no final do dia e  explicou a matéria que, na verdade, não era tão difícil, bastava se lembrar que o idioma pátrio merece ser falado corretamente.

Faltavam 10 minutos para o término da aula. Sorrindo, satisfeito consigo mesmo, Messias foi ao quadro branco, que não tão antigamente era negro, e escreveu uma última frase. Ao se virar, com um sorriso e a frase pronta para um boa noite sonoro, constatou, surpreso, que dos 30 alunos só restava um.

Mas esse não conta porque estava abaixado, amarrando o tênis para “levantar voo” rapidamente.    

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 Lilly Paes Barreto
 www.lillypaesbarreto.com.b

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