Lilly Paes Barreto

Os Amigos do Rei

Solitários, os monarcas, presidentes e outros poderosos, não costumam ter amigos íntimos e, muito menos, pessoas em quem possam confiar totalmente. Vivem em situações privilegiadas ( por dinastia ou opção ) mas, na verdade, são prisioneiros de sua posição. São “presos” em redomas de cristal facilmente quebráveis, examinados, por todos os ângulos e com crueza, por subalternos, jornalistas, humoristas e políticos ( principalmente da oposição ) como “aves raras” – admiradas, porém altamente falíveis.

Os bilionários, cercados de abundância, facilidades e bajulações, enrugados (apesar do Botox) pelas preocupações, conhecem o seu poderio mas, ao confiar em alguém, sabem que poderão ser traídos quando o dinheiro (“quem dá mais, quem dá mais?”) falar mais alto. O dinheiro é ótimo, mas quando é muito e a pessoa não sabe administrá-lo, advém um grande vazio e torna-se

difícil encontrar amigos de verdade entre os aduladores de plantão.

 

Muitos ricaços se casam com pessoas de nível cultural e social inferior, que demonstraram, ao longo do tempo, uma lealdade canina e uma devoção aparentemente desinteressada para com os seus antigos patrões ou amigos. Esses conquistaram o seu espaço. Existe amor? Claro que sim, mas a exceções apontam para os já encanecidos homens de negócios, com barriga proeminente, músculos flácidos e menos lépidos do que  “antes” que ainda acham que as jovens ( sempre na faixa dos 20 aninhos ) se casaram com eles pelo seu olhar penetrante, porte e dinamismo nos negócios.

Os diretores de empresa são também pessoas isoladas. Dependem de seus colaboradores para explicar e interpretar corretamente as suas decisões. Já os assessores – pessoas de total confiança – ao transmitir ordens desagradáveis do tipo “haverá um corte geral de pessoal” adotam atitudes de superioridade contrárias à determinação da chefia. Dizem que são amigos dos colegas, mas arvoram-se em pilares de dignidade, pois “transmitem a palavra do Grande Chefe Branco “.

Em quem confiar? Às vezes, para se valorizar e aparecer, assessores e assistentes diretos escondem documentos importantes nas gavetas, trancam a mesa e vão tranquilamente para casa. Serão chamados quando ninguém mais na empresa, ou no governo,  souber como encontrar um determinado documento ou como resolver um problema com o cliente ou eleitor,  indignado ... coberto de razão. Mas, quando a bomba estoura, invocam a sua inocência, dizendo “Isso não aconteceu no meu expediente”.

 

Sempre me surpreendo com a falta de planejamento, desconsideração e aparecimento dos “amigos do rei” nas mais variadas situações. De certa feita, uma empresa de transporte de carga pesada contratou os meus serviços de headhunter; estava precisando de um executivo financeiro com urgência. Será que foram suficientes os dois currículos pré-selecionados que apresentei, após entrevistar 11 candidatos? Não, a empresa queria ver mais um, talvez para testar o meu poder de fogo.

Finalmente, foi resolvido que um dos candidatos apresentados deveria ir a São Paulo, com urgência, para a entrevista final com o Presidente. Torci para que tudo desse certo. Recebi o esperado feedback: o candidato tinha sido bem recebido, com a entrevista correndo bem. Em seguida, foi convidado para visitar a fábrica e almoçar no Mufarrej Hilton, antes de voltar ao Rio de Janeiro. Poderia haver algo melhor? Sim, bastava uma decisão final, que veio realmente, depois de ... 10 dias.

Foi fantástico. Numa decisão a posteriori, o Presidente resolveu  encontrar um velho amigo da família (não faria diferença se tivesse contratado a amante de um parente ou um técnico com mais de 70 anos, o importante era ter livre trânsito na esfera governamental ). Imagino que o Presidente, preso no congestionamento diário da Marginal, lembrou-se, de  repente, que tinha o homem certo para aquela posição. Deve ter feito e refeito os cálculos – tempo havia – e certamente achou mais proveitoso contratar o “seu” homem do que honrar o compromisso com o quase contratado.

Calcular por calcular, às vezes o próprio rei acha que deve reduzir as despesas. E o que faz de positivo com esse objetivo? Corta o segundo carro do ano? Reduz o número de “aspones”? Demite os cinco motoristas que passam o dia lendo jornal, aguardando ordens dos diretores para levá-los a  algum compromisso ou buscar os filhos no colégio? Quem sabe, talvez o planejamento de cortar despesas resulte na transformação do restaurante à la carte em refeitório para funcionários!

Quando os poderosos encontram, finalmente, um amigo leal, que até briga por eles, não importa muito se ele desconhece todas as nuances de um assunto. Poderão pesar os pós e contras de um assunto, mas se forem assim aconselhados, demitirão funcionários ou não farão mais aquele negócio fatalmente divulgado. No caso acima, bastou apresentar (fraquíssimas) desculpas e sair de fininho, à francesa. E a vida continua e a desconsideração, voilá, floresce.

 lillyleonie@terra.com.br

Consultora, Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental.

Autora de "Como se Livrar de Um Executivo Incômodo" 

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