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Os Bípedes também deixam Rastros Nada passa a um caçador atento: o cheiro da mata, a direção do vento, o súbito bater de asas dos pássaros e, principalmente as pegadas dos animais que passam informações preciosas sobre o que está acontecendo na mata. As gaivotas, ao se precipitar ao mar, em vôos rasantes e perfeitos, também observam a movimentação dos peixes para fisgá-los no momento certo. Nós, bípedes, também deixamos rastros sobre quem somos e como pensamos. . Fingimos que vestimos roupas suntuosas, de início do Primeiro Reinado, quando na realidade estamos nus. Difícil é a vida dos postulantes a emprego! Devem dizer que está tudo bem e se apresentar serenos nas entrevistas, quando há muito tempo não sabem o que seja um dinheirinho extra no fim do mês. Precisam parecer fluente (pelo menos em português) e se vestir de acordo com o cargo pretendido e o ambiente de trabalho (fábrica, obra, loja, escritório). Para impressionar é imprescindível “acender” os olhos para brilhar até no escuro. Assim, o entrevistador pensará que, ao pisar no hall de mármore, o candidato apaixonou-se irremediavelmente pela empresa. Preocupados e atentos a eventuais falhas em seus currículos, os candidatos “pisam em ovos” para responder com clareza a todas as perguntas. Às vezes, quando são entrevistados pela psicóloga que está vivendo seu grande momento de fazer um laudo, ouvem perguntas infantis, do tipo: “por que você está desempregado?” ou então essa preciosidade: “A sua família já registrou casos de doenças mentais?” antevendo, com rara acuidade, problemas delicados de comportamento.social afetando o pobre e suadíssimo candidato. Quem não tem majestade, adota uma falsa postura para comunicar ao mundo que é uma pessoa importante para se fazer respeitar. Pois sim! Os verdadeiros fidalgos são discretos. Quando são ricos, não se pavoneiam e não alardeiam o seu patrimônio aos quatro ventos. E aquele candidato, tão controlado que, propositalmente, não movia nenhum músculo do rosto? O seu currículo não continha nenhum dado diferente dos demais. Ele, sim, era especial. Parecia um bom profissional mas, ao levantar as referências, a empresa descobriu que, de fraude em fraude, a sua vida já era investigada pela polícia. Ele chegou a vender drogas no estacionamento de um ministério. A sua ligação com o submundo foi descoberta. Salvo engano, hoje está preso. 0 entrevistador, aparentemente auto- confiante, também tem suas dúvidas e dificuldades diante da pressão de encontrar, com urgência, o profissional certo solicitado pelos departamentos. Deve dizer "Aguarde em casa o nosso telefonema, talvez daqui há duas semanas", quando sabe perfeitamente que aquele currículo será desprezado. Bola de cristal? Ninguém tem. Para analisar o perfil de um candidato, observa-se o seu currículo, gestual e expressões usadas numa simples conversa, mas a percepção e sensibilidade do entrevistador, aliadas ao bom senso em não exigir qualidades impossíveis de encontrar num ser humano, valem pontos na elaboração de um laudo. 0 que dizer, então, do engenheiro nuclear que deixou um recado urgente, no minha consultoria, pedindo retorno? Lembrou a sua pessoa, circunstância em que nos conhecemos e quase, quase, o dia em que passou no exame de admissão! Achei estranho, não conhecia aquele prefixo. Ouvi a gravação três vezes para entender melhor. Recorri à operadora, arriscando ser cobrada indevidamente. Mas o que fazer? A curiosidade era mais forte. Impulsionou-me para o 00211313 e parei. Para completar a ligação, precisava discar sete números. 0 quase ex-futuro candidato, não me encontrando, optou pela solução mais fácil: que fosse chamado em Detroit, nos Estados Unidos, onde estava fazendo o MBA.em Administração. É complicado fazer uma avaliação correta. Alguém já pensou no Meiras, formado há três anos em Comunicação Social, que não consegue emprego devido à sua feiúra? Quem disse que beleza não é importante? Pelo menos, a aparência é. Mas o Meiras não sabia que não sabia; barbudo sem barbeiro, portava-se como dono da verdade, embora fosse sustentado pelo pai. Imaginem, esperava que as agências de publicidade lhe comunicassem o andamento do seu processo de contratação, assim como os médicos pedem: notícias dos pacientes. . Sem entusiasmo, alguns consultores de recursos humanos ensinam como se portar nas entrevistas, mas nenhum sugere usar um perfume mais discreto e tratar com urgência o mau hálito e as mãos frias que derrubam qualquer pessoa. Também não sei de nenhum candidato ser orientado para não contar ao entrevistador que, desde o século passado, a sua vida sexual anda numa penúria de entristecer qualquer mágico. A vida sempre apresenta novos desafios que devem ser enfrentados com coragem.Um tom de voz errado, um desabafo nos ombros de quem não está disposto a ouvir, podem detonar uma amizade ou pretensão a um bom emprego. A voz, por exemplo. Imaginem um garoto que sonha ser locutor de rádio ou DJ bem sucedido. Adulto, descobre que a sua voz, fina e esganiçada, não lhe permite tentar a carreira idealizada Feliz daquele que desiste dos sonhos da juventude em face da cruel realidade. Alguém precisava aconselhar o rapaz da minha lembrança de procurar um fonoaudiólogo: a sua voz tétrica parecia vir do Além, assustava quem a ouvisse e poderia prejudicá-lo, mesmo se pleiteasse um emprego de auxiliar de portaria de edifício residencial. Já Isoldina, candidata à Auxiliar de Almoxarifado, em casa despe o tom de voz profissional e, à vontade, mostra-se desatenta. Deixou o currículo no Departamento de Pessoal de uma indústria de sardinhas em lata. Ao ser chamada para uma entrevista, pensou que o antigo namorado quisesse reatar e não atendeu o telefone. Mandou dizer que "estava com os pés na água". Pobre moça, deve estar inchada e disforme, pois até hoje não se dignou a enxugar os pés e retornar o telefonema de emprego. * Administradora de Empresas Consultora, Treinamento & Desenvolvimento Comportamental lillyleonie@terra.com.br |