Lilly Paes Barreto

Para que Criar, Se Podemos Copiar?

"0 senhor quer conversar com o nosso representante? Perfeitamente, o nosso funcionário estará aí dentro de, no máximo, uma hora”, responde rapidamente a secretária.  0 Contato de Publicidade, que já veio “pronto” de casa, é chamado às pressas. Está de terno “de missa” escovado, sapatos engraxados e cabelos cortados. Conhece bem a empresa cliente e decorou a lição sobre a a meta a ser atingida por uma eventual campanha publicitária. Embora disposto a enfrentar o “inimigo”,  está tenso, pois de sua atuação dependerá o sucesso da equipe de trabalho e o faturamento da agência.

 

Uma vez contagiado - espera-se - pela retórica e argumentação do Contato, o cliente pede um orçamento ou previsão de custos. É nesse momento que a batalha pode ser ganha ou perdida. Geralmente, o cliente acha tudo muito caro. Chora, pede abatimento. Não acredita que uma “ínfima” redução do orçamento poderá resultar na contratação de um fotográfo ou editor menos tarimbado.

 

Na verdade, o cliente leva o Contato ao desespero (quase que arranca os cabelos que ainda lhe restam) por que se recusa responder à clássica pergunta: “Qual é a verba disponível para a campanha?” Na verdade, a pergunta não é tão simples assim,  ninguém quer trombetear o seu faturamento ou ser forçado a pagar honorários descabidos. Lembra um primo que pediu a um amigo que fizesse a sua declaração de imposto de renda, mas ele somente poderia mostrar as

despesas; não tinha confiança em falar sobre os lucros !

 

De volta à agência com um sorriso triunfante e o rascunho do contrato na pasta, o  Contato faz um relatório completo para o seu diretor, que detona um processo de reuniões, correria e “brainstorming” com a dupla de criação, o departamento de mídia, fotógrafos, gráfica, todo mundo; a campanha deve estar na rua no dia certo e não tem a menor importância se o pessoal trabalhar noite adentro - quando não há trabalho, joga-se poker em plena luz fluorescente do escritório.

 

No calor da criação de uma campanha, com a pressão e os nervos à flor da pele, alguns profissionais correm para consultar as publicações estrangeiras especializadas, preferivelmente os anuários com trabalhos já premiados. Sei que as agências vão me manter, mas muitos dizem: “Não há nada de novo no planeta. Tudo se copia e se recria”.

 

Marivaldo Teixeira, apelidado de “Teixeirinha” pelos amigos, respondeu a um anúncio solicitando currículos para gerente de marketing. Foi chamado para entrevistas numa agência de empregos que, para “avaliar o seu potencial”, solicitou um projeto de pesquisa de mercado para seu cliente - um banco. 0 candidato, imaginando que esse trabalho poderia resultar numa contratação, não percebeu a inexistência de uma correlação entre uma agência de empregos e um trabalho de pesquisa. Trancou-se em casa alguns dias e, como os escritores de novelas, não saiu enquanto não concluiu o projeto.

 

Teixeirinha não foi mais contatado pela agência de empregos, que aproveitou o material para incluí-lo no “projeto próprio” que apresentou à direção do banco. Mas, como mentira tem perna curta, não recebeu os honorários “devidos”: o banco se apoderara daquelas boas idéias de pesquisa de mercado, dispensando o serviço da agência que, de qualquer maneira, estava navegando em águas territoriais de outro país. E ponto final!

 

A história se repete. 0s arquitetos costumam comentar que é normal receber pedidos de projetos de decoração  para a casa do patrão. Executam o serviço, usam a sua criatividade, mas trabalham inconformados em ter as suas idéias aproveitadas por outros.... e sem nenhuma compensação financeira. Assim, o meu amigo Giuseppe Lyra (quase digo Verdi), não se admirou quando o presidente da empresa em que trabalhava - um inglês cheio de manias, MAS gourmet conhecido - se aproximou da prancheta e lhe pediu que esboçasse o desenho de uma cobertura para o seu barco ancorado na Marina da Glória.

 

Feito o desenho,  o assunto foi esquecido até o dia quando o presidente fez uma nova incursão à sala dos arquitetos para mostrar à plebe a foto de seu barco com a tal cobertura que fôra incluída numa revista de navegação. Deve ter pensado que o arquiteto vibraria de felicidade pela honra de ter o seu trabalho publicado no estrangeiro. Esqueceu-se de que artistas, bombeiros e executivos (1) gostam de saber que o seu trabalho foi apreciado, (2) precisam sempre de um dinheiro extra e (3) costumam cobrar pelos seus serviços.

 

Também pensei por uma situação delicada de apropriação indevida de um trabalho. Aconteceu há muito tempo,mas como esquecer as coisas ruins que acontecem e nos marcam? De boa fé, escrevi um trabalho intitulado ”Responsabilidades do Gerente de Recursos Humanos de Um Grupo Hoteleiro” para um professor universitário, doublé de jornalista que desejava a minha colaboração, assim me disse, para uma apresentação solo a uma empresa.

 

Para conhecer as brilhantes idéias do ilustre professor e detalhes quanto à minha colaboração, fui recebida em seu escritório de forma afável, com a possibilidade de escolher entre ser servida de café, chá ou chocolate. Depois de entregar o trabalho, devido à dificuldade de ser recebida novamente e ter qualquer informação, conformei-me com as sábias palavras da recepcionista que me aconselhou a esperar o resultado em casa.

 

Nada de mais.! Decorridos 10 anos, continuo aguardando. Como não aconteceu absolutamente nada, gostaria de cumprimentar o valoroso professor pela sua  criatividade. Tenho que admitir, foi um bom trabalho. Colheu dados de vários profissionais de recursos humanos. Usou os recursos da época (tesoura, lápis de côr, cola). Interpretou e corrigiu algumas idéias e pronto, conseguiu  um cliente satisfeito. É a lei do mínimo esforço versus faturamento rápido. Por isso, quando leio ou ouço o nome do professor, me encrespo como um gato quando sente perigo e se prepara para atacar. No meu caso, resmungar.

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lillyleonie@terra.com.br
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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