Lilly Paes Barreto

Perdoar? Não perdôo Não!

Conheci o "manda chuva" de uma indústria de ceramica. Embora fosse casado com a filha do dono, era conhecido pelas suas próprias qualidades de liderança , interesse pelos negócios da empresa e capacidade de resolver problemas. Por muitos anos, a empresa fora a principal do mercado; com o passar do tempo, apareceram vários bons concorrentes e o que era uma situação definida, se transformou num problema que precisava ser analisado e resolvido.

 

Este executivo resolveu contratar a minha consultoria para ajudá-lo a procurar um profissional para a sua Gerência Nacional de Vendas. Convidado, foi com o meu sócio a um restaurante onde não havia o perigo de serem observados por olhares e ouvidos atentos. Com calma, definiram o perfil do profissional a ser contatado e o consultor se retirou, satisfeito.

 

Nas entrevistas com uma gama de homens de venda (tintas, vernizes e produtos de limpeza) ele ouviu muitos comentários. 0s candidatos conheciam as dificuldades da empresa, inclusive por que alguns estavam trabalhando em empresas concorrentes. Sabiam também muitos segredos do mercado. Aparentemente, todos “estavam bem”, mas queriam mais. Afinal, uma gerência nacional é um passo importante na carreira de um homem de vendas.

 

Ao apresentar os candidatos pré-selecionados à empresa, tivemos o cuidado de fazer um relatório completo, assinado, contendo todas as informações, incluindo os comentários daqueles que achavam que, para sobreviver e se manter na liderança, a empresa precisaria  transferir as atividades  para São Paulo, onde estavam os grandes clientes. 0 consultor foi franco na apresentação da pesquisa. 0 seu objetivo era dar subsídios  para montar uma nova estratégia, mas arependeu-se  de ter assinado o relatório; devia saber que as pessoas não aceitam críticas facilmente e que a tal crítica construtiva geralmente é mal recebida.

 

0 resultado foi previsível. Com um simples “Isso  é papo furado”, foi dispensado. Consequentemente, foi difícil manter os contatos com aquela empresa por que as suas palavras, vindas de "alguém de fora", foram interpretadas como ingerência nos assuntos internos. A consultoria perdeu o negócio, perdeu-se o cliente. 0 "pecado" de expor a situação claramente não foi perdoado.

 

 Em compensação, resolvi esquecer o caso do Tanakara Kefugiu, que apresentamos a um fabricante

de aparelhos de ar refrigeradocondicionado onde trabalhou sete meses como contador de custos. Um dia, Tanakara vestiu repentinamente o paletó, no meio da tarde, para nunca mais voltar. Parecia aquele filhinho de papai que, em seu primeiro emprego, não suportou ser chamado à atenção, pegou a mochila e foi  embora. 0 Kefugiu alegou que a esposa estava passando por uma crise de depressão  e necessitava de seu apoio constante. Talvez fosse verdade mas nesses caso, costuma-se pedir  licença ao chefe, que também tem sua parcela de problemas e está apto a avaliar uma emergência. Mas nada disso aconteceu. Quem sabe, talvez a depressão estive alojada na mente do Tanakara por que, ao desaparecer, achou um bode expiatório perfeito - a própria esposa.

 

Alguns anos depois, esse contador, tão esquecido, coitado, apareceu no meu escritório com um currículo e corte de cabelo novos. Devido à minha curiosidade normal, creio, resmungou um “Não estou certo, mas acho que já estive aqui”! Acho. Conheço profissionais que perderam o emprego por “achar” que sabiam alguma coisa, sem perguntar, pesquisar ou procurar conhecer melhor o problema. 

 

É, mas não perdoei o Henrique Borba, candidato a uma gerência administrativa, cujo currículo refiz,  como das outras 5000 vezes em que me empenhei por um candidato. Foi chamado para uma entrevista. Após 10 minutos de conversa, foi dispensado; havia outros candidatos excelentes (frase padrão, de pouco efeito). Disseram também que seria contatado, mas havia uma pequena dúvida, o currículo fora apresentado por outra consultoria, simultaneamente com a minha. Fiquei desconfiadíssima e não era para ficar? A empresa cliente devia estar tocando a Marcha Nupcial em diversos casamentos ou seja, para preencher aquele cargo, já tinha contatado todo o Rio de Janeiro.

 

Dias depois, descobri que o Borba era o verdadeiro rculpado pela confusão. Cometera uma falta da ética, mentindo e apresentando o currículo a diversas consultorias, sem  nada dizer a nenhuma. Sim, distribuira aquele mesmo currículo que eu havia elaborado. Pensou que assim, teria mais chances de conseguir um emprego. Telefonei para verificar a informação e ouvi o seu "depoimento".

Ajoelhando-se do outro lado do telefone, provavelmente no chão de sua sala de jantar, pediu clemência e disse que era inocente: não sabia que estava sendo apresentado por duas consultorias. Não sou santa, mas tive que perdoá-lo.

 

lLilly Paes Barreto (lillyleonie@terra.com.br
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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