Lilly Paes Barreto

Rostos Na Multidão

Um dia, Jacques Cousinet, que na época era Gerente de 0perações  de uma construtora, pediu que a minha consultoria fizesse um contato discreto e marcasse uma reunião com uma programadora visual, sua conhecida. Havia uma vaga na empresa e ele achava que a moça  preenchia os  requisitos. Ao nos contatar, o gerente avaliou que anúncios seriam dispensáveis já que tinha em mente a pessoa certa. A discrição era por conta do ciúme que os colegas costumam sentir, especialmente dos novos contratados. Era uma boa oportunidade, ainda mais que emprego, que é bom, é sempre um ponto de interrogação.

 Liguei uma, duas, três vezes para a casa da eventual candi­data. Deixei recado com o marido, que se identificou como 0ficial de Marinha. A quarta vez, que jurei, mentalmente,  que seria a última,  ouvi um recado curto e grosso do marido (sempre ele): "Não telefone mais, pois a minha mulher não é  daquelas". Tenho raciocínio lento, reconheço, mas finalmente  entendi.  Ele devia achar que estava falando com  uma  (1)  lésbica, (2) cafetina ou talvez (3) companheira de programas picantes. Cheguei à conclusão que o tal oficial devia ser  grosso por natureza ou, então, ciumentíssimo. Quem sabe, talvez  fosse a encarnação de um daqueles machões de outrora que não toleravam saias curtas e decotes (da própria mulher, é claro ). Eu, hein, encontra-se cada complexado!

 Já a experiência seguinte foi diferente, mas também interes­sante. Marquei uma segunda visita a um banco de grande porte. Como a gerente ausentara-se repentinamente, fui recebida por uma psicóloga que me explicou que "preferia ouvir do que falar". Jovem,  de boa aparência,  tinha um ar de gazela assustada.

No princípio, não entendeu o objetivo da visita. Na certa, não recebera nenhuma orientação  sobre como lidar com o público. Anotou as informações  sobre a minha consultoria, de forma cortês e  contida, sem  comentários, discreta até enjoar.

Consegui saber que trabalhava no Banco há três anos, colaborando na implantação de um programa de treinamento e desenvolvimento de pessoal. Não disse mais  nada; decerto estava elaborando mentalmente o seu relatório para, num passe de mágica, com palavras precisas, me enquadrar no perfil psicológico que havia estudado na faculdade.

 Ao me despedir, pedi o seu nome. Não quis me dar. Disse que não era importante, pois "fazia parte de uma equipe de trabalho". Junta­mente com o cartão de visita, apresentei minhas credenciais (estado civil, residência, formação), esperando, em contra­partida, pelo menos seu nome completo. Depois de muita insistência, consegui saber o seu  primeiro nome - Solange. Cinco minutos de­pois, quando estava no corredor, aborrecida e pronta para sair, a psicóloga me chamou para mostrar a porta de saída do labirinto onde nos encontrávamos (oh, escritório complicado!). Fiquei na dúvida; a

genti­leza era normal, destinava-se a  desfazer uma  má impressão ou tinha o objetivo de evitar que a visita fizesse algum comentário inapropriado com o segurança ? Saí com a impressão de ter falado com a inse­gurança em pessoa.

Por timidez, excesso de zelo ou sei lá  mais o quê,  pessoas como a Solange e a programadora visual de que já falei  desaparecem na multidão e seus rostos são rapida­mente esquecidos. Gostoso é quando o tempo passa, as pessoas não são vistas por muito tempo e de repente, ao telefonar, o interlocutor diz. sabiamente: "E claro que me lembro de você. Como poderia esquecer a sua fisionomia?"  Pode ser uma mentira convencional para agradar,  mas que  faz um bem enorme ao ego, isso certamente faz.

(x) Headhunter. Palestrante de Treinamento/Conscientização Comportamental, autora de ”Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”                                lillyleonie@terra.com.br

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