Lilly Paes Barreto

Segredinhos

Cada terra com seus costumes, diz o provérbio. Posso completar: cada empresa vive a sua cultura e realidade. Quando se conhecia a origem da empresa, era mais fácil prestar atenção em nossas atitudes para evitar erros que não se es­quecem rapidamente. Agora que as empresas têm capital diversificado,  equipamentos montados em vários países e executivos de diversas nacionalidades, é bom se policiar por que, depois,  é tolice "fazer bonito", as  bobagem já  foram registradas.

 

Penso com saudade, por que era uma excelente pessoa, na Margareth (Zurlea, não a falecida irmã da Rainha da Inglaterra) que ficou tão impressionada com a beleza de uma embaixada oriental, que se achou na obrigação de caminhar pelo salão com as mãos juntas, à tailandesa, como se homenageasse alguém. E o filho do amigo do conselheiro econômico da antiga embaixada da Indonésia? Foi preciso segurar o garoto para não tocar o gongo      colocado no salão principal. Deve ter pensado: "Pôxa, por que só gente grande pode tocar o bumbo?"  

 

0  meu cunhado costumava dizer que um aperto de mão  equivale a um contato íntimo entre duas epidermes. Que bobagem! Descontado o sinal característico dos maçons e certos gestos tacitamente entendidos entre pessoas com as mesmas inclinações, sei que os ameri­canos não apreciam o cumprimento usado entre nós. Então, é  melhor tratar de seu assunto, cumprimentar com um sorriso e ir embora. Caso haja dificuldade de manter os braços inertes, ao longo do corpo, pode-se apertar a mão,  mas por favor, basta uma vez, pois há  pessoas, vendedores, por exemplo, que acham imprescindível cumprimentar as pessoas duas vezes,  na entrada e na saída, tudo no longo espaço  de cinco minutos.

 

0 abraço “de urso” demonstra amizade, mas pode constranger quem o recebe, especialmente quando o chefe ou o/a cônjuge observa a cena. É melhor controlar o entusiasmo repentino ao rever um antigo colega de faculdade que subiu na vida. Quanto à palmadinha nas costas ou barriga, hábito muito usado entre nós, é bom lembrar que não  encontra eco nos costumes internacionais. 0s executivos europeus, mais frios, que já não  entendem  por que  falarmos tão alto, certamente preferem fazer negócios com parceiros menos emotivos. 

 

Antes de visitar uma empresa, os orientais aguardam o convite para entrar, o corpo e a cabeça levemente inclinados. Ao invés do nosso “dá licença”, quando adentramos um escritório sem esperar resposta, não custa aguardar alguns instantes antes de nos dirigir à sala do chefão. Quanto à repentina lembrança de que as meias estão furadas, as visitas podem ficar despreocupadas; não serão solicitadas tirar os sapatos.

 

 É bom selecionar as piadas. Parece que o paulista já pode parar, o baiano não gosta das brincadeirinhas sobre a importância das horas extras e o amanauara já se cansou em explicar o clima "ameno" de sua terra. "Em compensação", diz, "as noites são bastante frescas" E os colecionadores de piadas? Sorriem sozinhos ao imaginar o momento culminante, no final  da piada, quando a platéia se dobrará de tanto rir. Mas atenção; algumas piadas, quando traduzidas  para outro idioma, não tem a menor graça, sal ou nexo.   

 

A liberação dos costumes chegou ao Brasil? Nem tanto! É verdade que, em algumas faculdades, os alunos, devido ao calor, acham imprescindível  e mais confortável colocar os pés em cima das cadeiras, bem no nariz do professor. Convenhamos, são poucos, esses casos. Quanto às roupas, já vi de tudo, desde às saias longas e jóias, usadas no primeiro dia de trabalho,  até às gravatas que brigam com o terno porque o dono da indumentária se considera “pra frente”. 

 

As pessoas devem se vestir de acordo com o ambiente de tra­balho - ternos no escritório, roupas esporte nas fábricas. Geralmente é assim por que ninguém vai à missa de pijama. Infelizmente, há exceções, como as recepcionistas de barriga de fora e calças apertadas, provavelmente costuradas no corpo, cujos chefes ficam sem jeito para chamar a atenção. Ou então, os candidatos possuidores de egos inflados, como o Rildo Junqueira, que teve a audácia de ir a uma entrevista, usando sandálias, jeans e uma camiseta psicodélica, muito de seu agrado. Como não conseguiu o emprego, devido à sua indumentária, justificou-se dizendo que a entrevista fora realizada num sábado, na casa do presidente da empresa.

 

Nas Ilhas Bermudas, os executivos usam bermudas com camisa social, gravata, sapatos e meias. Já em Portugal, as roupas são conservadoras: cores escuras ou neutras, meias (sempre), decotes recatados, paletó e gra­vata para "atos sociais", considerados assim mesmo nas reuniões em casa de amigos, em dia de muito calor.  Fora das empresas, quando os anfitriões são conhecidos na localidade, os hóspedes devem se vestir de acordo com os costumes locais. Ser moderninho pode ser interpretado como incivilidade. Por isso, acho que não custa acompanhar os costumes, mesmo que devamos renunciar, tem­porariamente aos shorts, micro saias e às gravatas coloridas

acompanhando sizudos ternos listrados.

 

E o Bruno da Conceição, hein? Antes da entrevista final, foi informado pela psicóloga de que, tratando-se de uma empresa tradicional, no Brasil há 40 anos, deveria prender, esconder ou cortar o seu rabo de cavalo grisalho. Fez o sacrifício: o que importava era conseguir o emprego. Daí em diante, o ex-candidato, agora um ótimo Gerente de Suprimentos, precisava ser “preparado” para as reuniões. A secretária perguntava:

 

-     0 senhor tem no armário um terno discreto para se apresentar na reunião com os sócios holandeses?

-     Não sei, minha mulher é quem cuida disso. 0 que você sugere?

-     Terno cinza ou marrom e, por favor, camisa branca.

 

Esta foi uma mensagem a Garcia. No dia seguinte, o gerente se apresentou com um interessantíssimo terno verde grama e gravata azul brilhante.


lillyleonie@terra.com.br
(lillypb@terra.com.br)
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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