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SST! Ninguém Precisa Saber Que Estou Aqui
E não souberam mesmo. Quando os funcionários
descobriram que aquele estrangeiro alto, ruivo, que falava somente
espanhol e visitava todos os escritórios pela manhã era o Vice-Presidente
do Banco, já era tarde. Ele tinha ido embora e não mais se podia bajulá-lo
ou apresentar queixas e sugestões em nome dos colegas. A história era simples. As notícias que chegavam a Nova York invariavelmente focalizavam turbulências no mercado financeiro brasileiro, embora alguns executivos, mais otimistas, repetissem o refrão de nosso excelente futuro (quando mesmo? Certamente no próximo século). Aí, ao invés de chamar os diretores brasileiros aos Estados Unidos ou pedir novos relatórios com informações mais precisas e atualizadas, a cúpula do Banco resolveu mandar um emissário especial ao Brasil para observar a situação discretamente. Ele deveria ouvir e perguntar muito, sem chamar a atenção.
Efetivamente, a postura desse emissário não poderia ter sido melhor. Excetuando a sua aparência anglo-saxônica e os ternos elegantes, poderia passar tranqüilamente por um auditor externo, desses de que todos têm medo, que investigam e fazem recomendações, que geralmente não são levadas em conta. Para entender melhor o que se passava e ao mesmo tempo se comunicar melhor com todos, o Vice-Presidente resolveu estudar português intensivamente. Fui convidada a dar essas aulas, embora seja professora de inglês, não de português. Cedi, pelo desafio e importância da tarefa e não me arrependi.
Jamais esquecerei a primeira aula, na sala de reuniões da Presidência, no 9o andar de um prédio importante na Rua do 0uvidor, no Rio. Sentada confortavelmente à longa mesa de mogno, cercada de móveis austeros e elegantes, pude admirar também os quadros clássicos e o enorme lustre de pingentes de cristal que adornava a sala onde tantas decisões importantes eram tomadas.
As aulas seguintes deveriam ser dadas numa sala mais apropriada, mas como não havia espaço disponível, usamos ... o consultório do oftalmologista do Banco. Ao entrarmos nessa saletinha, vi que havia apenas uma cadeira - a do médico. E agora? Deveria dar a aula em pé? E quem ficaria sentado e quem continuaria em pé? Em vista da aflitiva situação, o próprio aluno saiu pelos corredores, à caça de uma cadeira. Como não conseguiu - ninguém queria ceder a sua cadeira de visitas - resolveu afastar um pouco o equipamento oftalmológico e se instalar na cadeira de exames. Pobre executivo, deve ter se sentido bastante mal naquela cadeira alta, desconfortável, ele que bastava usar o interfone para obter respostas imediatas de dez secretárias.
Ao término de três meses, quando já estava arranhando o português, o meu aluno voltou aos Estados Unidos onde, certamente o aguardavam assuntos mais urgentes. As suas observações, in loco, tiveram peso; ao cabo de aproximadamente, dois anos, o Banco alugou alguns andares em outro prédio, liberou o edifício da Rua do 0uvidor e transferiu a Matriz para São Paulo.
Tempos depois de sua volta aos Estados Unidos, começou a boataria e, como todo boato tem fundamento, descobriu-se de que o Vice-Presidente tinha realmente trabalhado no Brasil. 0 que se poderia fazer perante a constatação de uma oportunidade perdida de aparecer? Roer as unhas em sinal de desespero? Proclamar-se inocente pelo fato de não ter dado atenção àquele “gringo”? Quem sabe, talvez fosse melhor fingir-se de morto e explicar, caso alguém pergunte, que os funcionários responsáveis estavam todos, mas todos mesmo, ausentes ou completamente atolados em trabalho,
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