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Traidores E Espiões |
O que é um traidor ou
traidora? Aquele que trai a pátria? 0 que trai a confiança de um amigo? 0
desonesto que rouba o patrão na sua ausência? Talvez a pseudo-amiga que convida
para jantar, sabendo que dormiu com o marido de uma das convidadas? Não importa
a classificação: traidor é aquele em quem se confia, mas que, pelas costas,
consegue enganar e tirar vantagens para si próprio, à custa da credulidade
alheia.
Reinaldo Soares, dono de um nome comum, era uma ”fera” em informática e
estratégia empresarial. Lutou e estudou muito, defendeu uma tese de doutorado.
Morava na Barra, num belo apartamento decorado. Ah sim, tinha também um pequeno,
mas cobiçado haras, com dois cavalos de raça. Montou uma firma . De sucesso em
sucesso, foi progredindo até chegar ao ponto de ser disputado por várias
empresas importantes. Fechou bons contratos, inclusive na área governamental.
Pagava bem aos funcionários - até bem demais - por que achava que profissionais
com a formação que ele, tendo que representá-lo junto a diversas
instituições, não poderiam ser tratados como simples números e anotações na
folha de pagamentos.
Como os projetos estavam indo bem, Reinaldo resolveu tirar duas semanas de
férias no Chile. De lá, comunicava-se com o seu escritório, recebendo
informações tranquilizadoras sobre o escritório e os clássicos comentários: “
Aqui, tudo bem, aproveite as férias e não se preocupe”.
Pois sim! Quando voltou, com novidades e planos para o futuro, surpresa. 0 seu
fiel “escudeiro”, aquele que ganhava um excelente salário, havia visitado, na
surdina, o ministério contratante, propondo executar o mesmo serviço, por um
valor 30% inferior, sugestão aceita imediatamente, sem que alguém questionasse a
ética da transação.
Semanas depois da “grata surpresa”, Reinaldo foi encontrado na rua, pálido,
suando muito, contorcendo-se de dor no peito, com todas as características de um
infarto. Sim, devemos usar a inteligência emocional, mas ninguém pode ser
racional quando vivencia uma traição. A vontade que se tem, nesses casos, é de
estrangular o traidor com as próprias mãos, sem remorso.
Para não fugir à regra, também confiei e me arrependi amargamente. Alguns
segredos foram roubados. Pessoas passaram a falar em meu santo nome - e se
beneficiaram com isso - sem que eu desconfiasse, típica situação de marido
enganado, sempre o último a saber. De tantas frustrações, aprendi uma lição:
prestar mais atenção no comportamento das pessoas e pensar um pouco mais antes
de contar onde o “ouro” está escondido. .
Já os espiões são um capítulo à parte, embora situem-se no mesmo esquema de
traição versus confiança. Assim, fui enganada por um contador, marido de uma
ex-colega de faculdade, que queria informar um cliente sobre os honorários que
uma consultoria costuma cobrar. Paguei pela minha burrice; ele ficou com o
negócio e nunca mais deu notícias. Já outro candidato, um economista, tinha um
dado importante em seu currículo: era casado com a headhunter de um concorrente.
Não escondia a enorme curiosidade em saber como funciona o processo de
Recrutamento e Seleção, embora fosse mais fácil receber essa preciosa informação
no aconchego do lar.
Não roubo informações e não faço nada para prejudicar os meus clientes e os
amigos que confiam em mim. A maioria dos consultores não tem esse escrúpulo.
Alguém quer promover a sua firma? Fiquem certos de que. entre uma vantagem e
outra, mencionará, “en passant”, um nome importante, de ”um amigo íntimo’’,
somente para impressionar. Vai ver que nunca viu esse “amigo” mais gordo.!
Não é nada, não é nada, mas, desde que comecei a prestar atenção, já
contabilizei... 22 espiões comprovados, sem mencionar, evidentemente, os que se
apropriaram das minhas (boas) idéias. Ah, mas lembro-me muito bem da visita de
um engenheiro interessado em montar uma consultoria de controle e garantia de
qualidade para colaborar com indústrias de pequeno e médio porte. Disse-me que
fôra indicado por um amigo comum. Precisava de meu apoio para ajudá-lo a
encontrar bons profissionais. Claro que meu trabalho seria remunerado, mas havia
apenas um detalhe: antes de acertar os honorários, queria conhecer melhor o meu
método de trabalho.
Dei-lhe todas as informações, certa de que faríamos uma boa parceria. 0 tempo
passou - dias, semanas, meses. Nada aconteceu. Provavelmente, os meus recados
foram considerados indignos de ser respondidos. Teimosa, visitei repentinamente,
o edifício onde a firma do engenheiro estava instalada. Acompanhei a
recepcionista à elegante sala do “chefe” ..
Com a pose de quem estava faturando, o engenheiro (era ele mesmo), me informou
de que tudo estava correndo conforme os planos iniciais e que iria me telefonar
brevemente, palavra vaga que não significa absolutamente nada. Decorridos dois
anos e diante do silêncio ensurdecedor, resolvi esquecer o assunto e
considerá-lo como “morto”.
lillyleonie@terra.com.br
www.lillypaesbarreto.com.br
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento
Comportamental.
Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo
Incômodo”