Lilly Paes Barreto

Um Avalista Diferente

Ninguém quer ser avalista. Quem confia num amigo, avaliza, com receio, uma operação financeira, compra de carro ou aluguel de espaço de escritório. Pode até emprestar dinheiro, mas o resultado é sempre incerto: bom para quem faz a transação, péssimo para quem confiou. Enquanto o pagamento total não é honrado, o avalista roe as unhas, não consegue relaxar e, como dorme mal, briga com os filhos, chuta o cachorro e despede a empregada.

 

Escapei por pouco de um constrangimento que certamente causaria problemas. Um vizinho de escritório me pediu para ser sua avalista na  administradora de imóveis. Explicou que precisava se mudar de Itaboraí, em Niterói, para matricular os filhos num colégio melhor. Para alugar um apartamento, no Rio, perto do colégio, precisava  recorrer aos amigos; sabe como é, as administradoras fazem muitas exigências. Assim, pensou em mim como avalista. Duvidei de suas intenções; por que logo eu, que tinha acabado de me instalar naquele prédio? Em tempo, recebi o conselho providencial de “não me meter nisso”, já que o tal vizinho tinha se endividado várias vezes, com empréstimos solicitados até do bombeiro do  prédio.

 

Pior aconteceu com um amigo, alto executivo financeiro. Homem seguro, fechado, extremamente competente, era temido pêlos subordinados por se expressar sem subterfúgios. Quando chamava a atenção de alguém, o fazia energicamente, sem medir as palavras ou tom de voz. Mesmo assim, em seu último aniversário, os funcionários lhe fizeram uma festa com bolo, salgadinhos e refrigerantes. Após os abraços e parabéns, recebeu um presente simbólico: um chicote, que mandou pendurar na parede mais visível do seu escritório. No fundo, todos sabiam que, atrás daquela aparência severa, batia um coração amigo e generoso.

 

Um dia, a sua assistente lhe contou uma história triste. Recém-chegada de Angola, onde a família havia perdido tudo devido à revolução, veio ao Brasil para refazer a vida. Conseguiu um emprego e estaria satisfeita, pobrezinha, não fosse a preocupação com o irmão. Sem perspectivas de emprego ou de capital de giro, ele estava encontrando dificuldade para abrir um pequeno comércio de bijuterias. Precisava de um avalista e a irmã, cabisbaixa, sem jeito, pediu a ajuda de seu poderoso chefe.

 

Chicote ou não, o certo é que, devido ao aval de meu amigo, o banco concedeu o empréstimo. 0 tempo passou. A assistente se afastou para qanhar  mais, disse, em outro emprego. Tudo continuaria na mesma se não viessem as ligações do banco, primeiro polidas, depois ameaçadoras; o tomador tinha atrasado os pagamentos e pior, não era encontrado.

 

Nuna decisão inusitada e polêmica, principalmente no lar, o avalista, que na época era gerente financeiro, vendeu o apartamento para pagar a dívida do angolano. Achou que não podia se arriscar a ter o nome sujo na praça, logo ele, um executivo financeiro respeitado. Quem ficou com o prejuízo foi justamente quem confiou. Mas Deus é grande; ajudou o  executivo a chegar a posições importantes, com uma reputação irrepreensível, ao passo que os irmãos, que desapareceram de circulação, devem estar enganando outros... alhures.

 lillyleonie@terra.com.br

www.lillypaesbarreto.com.br

Consultora, Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental.

Autora de "Como se Livrar de Um Executivo Incômodo" 

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