Lilly Paes Barreto

Um Banheiro, Pelo Amor De Deus

Tenho "visitado" muitos banheiros, como os dois luxuosos (que dificuldade de escolha!) do hotel Estoril Sol, em Portugal, onde fiquei numa suite magnífica, com terraço debruçado sobre a esplêndida vista da Costa do Sol. Entre outras cidades, estive em Bucareste, na Romênia, onde depois de peregrinar por vários hotéis, hospedei-me no Victoria. Fui recebida com a cortesia costumeira, mas ninguém me avisou que o banheiro ficava no... corredor. Aí,  todas as vezes que queria "lavar as mãos" precisava chamar a arrumadeira, com o seu inseparável e pesado molho de cha­ves, torcendo para que encontrasse rapidamente a chave certa e me tirasse do “sufoco” .

 

Lembro-me também  da simpática pensão em Interlaken, na Suíça,  onde o bochechudo gerente estranhou o costume "desses brasileiros que vivem tomando banho". É verdade, só agora sei, a água tira a umidade natural da pele. Mas higiene é higiene. Passei por um “aprendizado” interessante na França. Além  das belas instalações do Ritz Carlton, co­nheci também alguns banheiros exóticos, com um buraco re­dondo no chão (para ser usado agachado) e marcas, como se fossem de sapato,  para colocar o pé de cada lado do bu­raco. Muito interessante, mas não totalmente incomum - já

utilizei um assim (tive que) na Turquia. 

 

Não havia banheiros nos reinados europeus, pelo menos como entendemos hoje, mas os guias dos cas­telos poderiam dar uma explicação melhor quando um turista  mais curioso deseja saber como eram as instalações sanitárias da época. 0s visitantes, embevecidos com tanta suntuosidade, querem também saber como "se fazia" para tomar banho, embora desconfiem de que, naqueles tempos, asseio e banho não se conjugavam. Bom mesmo é  nos Estados Unidos, onde o con­forto é  total. Por fantasioso que possa parecer, até no meio de uma estrada encontram-se   banheiros  limpos , com papel higiênico e sabonete, água quente e fria, toalhas de papel e secador de mão a vapor. Passam uma boa idéia do conforto do Primeiro Mundo!

 

Criativo foi Santos-Dumont que, em seu retiro de Petrópolis, usava um simples e asséptico banheiro. Tinha tudo, inclusive uma geniosa instalação para água quente, à esquerda, e água fria, à direita do chuveiro. No Rio de Janeiro, onde moro,  pro­curo chegar com antecedência nas reuniões para arrumar o cabelo. Assim, posso observar  os banheiros que, por serem raramente frequentados  pelas visitas, mostram como os funcionários são tratados. Por isso, tiro o chapéu à seguradora cujo banheiro, bem iluminado, com pias de mármore e  espe­lhos decentes, faz jus à bela casa onde a empresa está  instalada.

 

Muito frequentados, os banheiros dos shoppings são sempre limpos. Pudera, há uma equipe de manutenção atenta a tudo. Em compensação, os banheiros dos  bancos são “de chorar”. Com alguma dificuldade, já visitei alguns; geralmente são mal cuidados, têm armários pedindo uma pinturinha e  sofás... rasgados.  Isto é, quando existem,  por que caixas e bancários não podem descansar as pernas; precisam estar atentos e trabalhando o tempo todo. Agora, os “recintos” da diretoria convidam a permanências prolongadas. Isso me lembra que, nas empresas americanas, status equivale a possuir a chave do banheiro executivo. Vale mais do que uma vista panorâmica!

 

Os banheiros de algumas indústrias farmacêuticas são verda­deiras calamidades. Muitos têm  avisos com os dizeres: "Mostre que você é  limpa" ou  "Use este banheiro como o de sua casa". Quer dizer, assepsia total nos laboratórios, mas na intimidade, melhor não falar. Talvez seja bom investir em aulas práticas de como usar o banheiro.

 

0s restaurantes são empresas, sim senhor. Na caixa, atento e severo, está instalado o dono ou pessoa de sua confiança. Nada lhe escapa, especialmente quando o garçon se esqueceu de cobrar a jarra quebrada. Ninguém tem tempo, as mesas precisam ser atendidas com presteza. Mas os banheiros...  que tristeza. Não adianta falar em Saúde Pública, por que os fiscais raramente aparecem. Tampouco aceito a explicação de que os clientes são, digamos, desatentos. 0s proprietários não são fanáticos por higiene; então ‘‘por que deveriam se preocupar com os banheiros, que não dão lucro e exigem um funcionário a mais? Se alguém quiser conferir os resultados de um bom treinamento, que visite os banheiros dos restaurantes do SENAC, que impressionam pelo assseio e conforto.

 

Curioso foi  o que me aconteceu numa agência de um grande banco quando as pessoas da interminável fila comentaram que não havia banheiros para o público. Em desespero, me dirigi ao gerente:

 

-     Preciso ir ao banheiro com urgência.

-     Impossível!. É somente para os  funcionários. .

-     Pelo amor de Deus, me ajude, não posso "fazer no tapete"!

-     Sinto (quanta má vontade!) , mas não posso fazer nada.

-     Por favor, evite uma calamidade. Mande alguém me acompanhar ao banheiro dos funcionários.

 

E assim foi feito, para surpresa da estagiária que, a essa altura, não entendeu  por que o gerente mandou deixar tudo rapidamente e me acompanhar ao "toilette" (o eufemismo sempre soa melhor). Ainda bem: há casos em que o cliente, impedido de ir ao banheiro, por “ser exclusivo dos funcionários”, protesta, efetivamente tomando ... “atitudes drásticas “ 


Lilly Paes Barreto - lillyleonie@terra.com.br
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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