Lilly Paes Barreto

Uma Cabeça na Bandeja

Sem se conhecer pessoalmente até então, quatro executivos estiveram envolvidos numa mudança profissional de vulto. Manoel Augusto Kotlarewski era Presidente de uma multinacional, com passagem por outros cargos igualmente importantes. Morava em São Paulo. Embora tivesse  trabalhado em outros países, desde os do Primeiro Mundo até aos atrasados (que os americanos chamam de “exóticos”), o seu desejo secreto era de voltar a morar no Rio de Janeiro, na companhia de seus amigos e 2000 livros.

 

Esse executivo precisava contratar um Diretor de Marketing de primeira linha. Parece mentira, mas em São Paulo não conseguia encontrar ninguém com o perfil desejado. Contratou, então, um headhunter  do Rio de Janeiro - Arnaldo Paes Barreto, que se especializara em procurar no mercado - e encontrar - profissionais com talentos raros. Na verdade, o Presidente já tinha em mente um determinado profissional - Paulo Erasmo Meneghini  - que tinha uma sólida experiência de marketing de produtos químicos e já ocupava uma diretoria. 0 problema consistia em convencê-lo a se interessar por uma nova propostas de trabalho.
 

Com a determinação de um tigre e a leveza de um gato, o headhunter contatou  uma gama de profissionais, inclusive do Grupo onde Paulo Erasmo trabalhava. Conversou também com um gerente, seu subalterno,  que  trabalhava sob pressão, estava insatisfeito com a posição atual e   acalentava o  desejo secreto de ver o chefe  bem longe, preferivelmente transferido, definitivamente, para  Malásia.

 

Arnaldo conseguiu a entrevista mas Paulo Erasmo, que já tinha 54 anos,  disse claramente que não estava interessado em trabalhar numa outra empresa e que pretendia se aposentar para montar o seu próprio negócio.  Morar em São Paulo? Impossível,  ainda mais que sua família vivia feliz  no Rio de Janeiro e seus seis filhos adolescentes estavam se preparando para ingressar no mercado de trabalho.

 

Mas tudo tem o seu preço. No Rio, naquele restaurante do centro bancário, ninguém prestou atenção nos  dois executivos que, comendo pouco e tomando água mineral, conversavam discretamente sobre uma nova proposta de trabalho. Como frequentemente os  negócios  se resolvem em torno de uma  boa refeição,  era de se supor que Manoel Augusto  e Paulo Erasmo estivessem  chegando a um acordo satisfatório  para ambos,

 

No  escritório, Arnaldo  estava  tenso.  Não tinha sido um  longo namoro, mas  os “noivos” certamente marcariam o casamento. As horas se passavam. Nenhuma comunicação. Já em casa, não roeu as unhas de impaciência, mas não quis jantar e nem ver o noticiário da  TV. Devia ser 21 horas,  quando o telefone tocou . A  conversa foi rápida:

­- 0lhe­, Arnaldo, ­conversei com o Paulo  e quero contratá-lo. Ele é  excelente

. Perfeitamente, o assunto está bem encaminhado.

­- Discordo, ­­acho que errei a estratégia,  por que, de repente, Paulo se levantou da mesa e disse que não estava mais interessado em  negociar. 

 - 0 que vocês conversaram?
 

Depois de ouvir atentamente, Arnaldo concluiu:

   -  Manoel Augusto, pode dormir sossegado, vou lhe entregar a  cabeça do homem numa bandeja. 


No dia seguinte, procurou o ex-quase candidato na empresa onde trabalhava. Foi uma reunião difícil: Decepcionado, Paulo Erasmo não queria mais falar na empresa de São Paulo. Aos poucos, surgiu  a verdade. 0 Sr. Kotlarewski, num momento de desatenção no almoço de negócios, não apresentou as excelentes perspectivas de uma nova situação profissional. Ao invés, preferiu discutir  minúcias referentes ao salário de um executivo de porte que não queria se afastar de sua cidade para novas  “aventuras” profissionais.


Com o sinal verde do Presidente, Arnaldo apresentou ao Meneghini um pacote contratual, incluindo: um salário compensador, carta branca para reestruturar todo o marketing da empresa,  poder de decisão, viagens de negócios, ao exterior e um carro do ano, a ser  amortizado em quatro anos. Feitas as contas, e com a aprovação da família, Paulo Erasmo  pediu demissão,  após  20 anos de empresa e se mudou para São  Paulo, onde colaborou, com total sucesso, para o aumento da lucratividade no Brasil daquela multinacional.

Faleceu alguns anos depois. A família permanece em São Paulo e continua unida.  O gerente que indicou o seu nome não foi promovido, apesar das promessas e tentativas de ascensão. Continuou na empresa por algum tempo e acabou se aposentando.  0 headhunter, Arnaldo Paes Barreto, faleceu anos mais tarde. Quanto ao Manoel Augusto,  continuou ocupando cargos expressivos, inclusive na Rússia, onde trabalhou por algum tempo, vivenciando as dificuldades relativas ao clima, idioma e cultura. Hoje , de volta ao Brasil, desfruta do conforto e alegria de sua biblioteca. Ah, sim, por enquanto não pretende escrever nenhum livro.                      

         lillyleonie@terra.com.br

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