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Uma Noite Insone Há noites quando o sono não vem. Toma-se um antidistônico, o cansaço é grande, começa-se a relaxar, mas não é possível dormir. Quando passou-se o dia com um problema não resolvido, rola-se na cama, pode-se até sonhar, mas o sono não é reparador.
Apesar da generalidade do tema, há insônias monumentais que marcam profundamente. No dia seguinte, as olheiras não podem se disfarçar, vão “até à boca”, o corpo todo dói e o mau humor persiste. Os psicanalistas são analisados para não passar os seus problemas aos pacientes. Os espiritualistas também, saravá, livram-se dos fluidos negativos, para não "carregar" os traumas dos outros. E uma “headhunter”, o que faz? Ouve, conversa, aconselha e se policia para não levar para a cama e dormir com os problemas dos candidatos.
É fácil ditar regras. Lembro-me de uma certa noite insone devido ao inusitado da situação que me fora apresentada. . Uma trading americana, atuava no Brasil há alguns anos em “commodities”. Bem instalada, ocupando dois andares de um prédio inteligente no centro do Rio de Janeiro, tinha muitos funcionários e os negócios se desenvolviam a pleno vapor. Como era bastante conhecida, nada indicava o seu fim rápido e quase sem solução.
Houve um desfalque na Matriz (isso acontece também nos Estados Unidos) e, para que o caso fosse abafado, evidentemente pagando aos credores, recorreu-se ao dinheiro que a empresa tinha na sua filial no Brasil. Os laços com a filial foram abruptamente cortados. 0s faxes e E-mails desesperados enviados daqui não eram respondidos e pior, ninguém comunicava nada. Quando os gerentes brasileiros acordaram para o que estava acontecendo, trataram de abandonar o "barco" porque, afinal, os seus interesses pessoais estavam sendo prejudicados e precisavam arrumar um outro emprego urgentemente.
E assim, esse barco - a empresa - ficou à deriva, sem diretores e gerentes, sem liderança ou verba. Os funcionários compareciam ao escritório por hábito e também para ver como o problema seria solucionado. O único trabalho que havia era bater o ponto e ouvir as lamúrias e ameaças dos fornecedores que souberam, rapidinho, o que estava acontecendo e exigiam medidas urgentes para não perder dinheiro.
A situação perdurou por algum tempo. No
início, os funcionários se cotizaram para comprar café e produtos de
limpeza. Conversavam entre si e faziam palavras cruzadas. Semanas
depois, constituíram uma comissão para tentar receber os salários
atrasados na Justiça. Enquanto isso, alguns felizardos conseguiram
emprego, outros desestimulados, permaneceram aguardando uma solução de
um comprador eventual ou o aparecimento de alguma autoridade para
indicar um rumo. Ouvi essa história repetidas vezes, de várias pessoas. Perdi noites de sono. Aquela imagem de um escritório abandonado me perseguia. Tive sucesso na apresentação de duas pessoas a uma nova empresa, mas fiquei preocupada com os outros funcionários. Não, não tinha nada com aquilo, mas devido à indiferença do mundo, aqui e acolá, vidas são ceifadas e esperanças são irremediavelmente destruídas. Morrerei querendo participar. Como a história acabou? Não foi simples. Tudo foi vendido: móveis, mesa telefônica, aparelhos de ar condicionado, computadores e máquinas: primeiro pela comissão de funcionários, depois por um interventor nomeado pela Justiça. O dinheiro destinou-se a acalmar os credores e pagar parte dos salários. Ainda assim, os funcionários tinham que se dar por muito satisfeitos; conheço profissionais demitidos por banalidades que recorreram à Justiça mas, quando a empresa é poderosa o processo torna-se incrivelmente lento. Fora disso, o nome do prejudicado será incluído por toda eternidade, na lista negra da empresa e, até de seus concorrentes. Como dizia um ex-chefe americano: "Tudo o que acontece no Brasil, acontece lá fora também". Perfeitamente, mas em outros países, os culpados podem passar longas temporadas na cadeia, ao passo que aqui... Consultora,
Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental. |