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Uma Questão De Falta De Consciência Gerlinde Maciel tinha um ótimo perfil de secretária executiva: currículo excelente, domínio de inglês, vivência no exterior. Trabalhava numa empresa onde era considerada como “patrimônio”. Era pontual, calma, ponderada e não se apavorava quando o chefe gritava para pedir o contrato assinado há um mes, chamar o gerente com urgência e fazer algumas ligações importantes para clientes na Inglaterra, tudo ao mesmo tempo e para “ontem’’.
Poderia ter ficado muito tempo nessa empresa, mas curiosa, Gerlinde aceitou o convite para almoçar do diretor de outra empresa que visitava sempre o escritório e observava o seu trabalho. Ele disse: Venha trabalhar conosco! Esta é uma empresa pequena, coligada de uma estrangeira importante. 0 ambiente é bom, o salário compensador e você terá chance de subir até, quem sabe, uma gerência administrativa. Em princípio, estou interessada, quem não gosta de crescer? Mas diga-me: é uma empresa estável? 0 senhor sabe como é, precisarei pedir demissão e aqui estou há seis anos. Fique descansada. Somos sérios e nunca prejudicamos ninguém, pode perguntar a quem quiser. Pelo contrário, você ficará conosco por muito tempo. Agora, pense bem na minha proposta; você está bem em seu emprego atual, mas há tempo demais. Uma mudança vai lhe fazer bem, pessoal e profissionalmente.
E assim foi. Na fase de namoro e noivado (que ainda existe) as pessoas não costumam contar que o dinheiro não pára em suas mãos ou que as cunhadas se intrometem em sua vida. Também não se costuma contar que a família tem histórias de esquizofrenia. As grandes descobertas só aparecem depois, quando os papéis ja foram assinados, o casamento celebrado e a lua de mel terminou. Assim aconteceu com a Gerlinde.
Cinco meses depois de trabalhar na nova empresa, foi surpreendida ao receber a fria comunicação daquele mesmo diretor que a contratara. Disse que tinha que demiti-la devido ao (eterno) problema de economia. Ela podia ir para casa e não precisava voltar no dia seguinte para concluir as tarefas ou passar o serviço.
A secretária ficou com as pernas bambas. Era uma tremenda falta de consideração ser demitida assim, sem mais nem menos. 0 que poderia ter acontecido? Um repentino esgotamento nervoso que vitimou um executivo já estressado? Talvez a sua reserva habitual foi mal interpretada! Quando me contataram a história, confessso que pensei numa situação mais simples: a moça quebrara a cafeteira predileta do chefe e este não se conformou com a perda irreparável.
Sem constrangimento, aquele executivo demitiu uma fncionária, arrimo de família, a quem tinha prometido mundos e fundos somente para resolver os seus problemas administrativos. A pressa em demití-la, com ordens de não voltar mais, era devida à recontratação silenciosa de uma antiga secretária, mãe solteira, que não conseguia encontrar trabalho. Para isso, tirou a roupa de um santo para vestir outro. E o compromisso, como ficou? Ora, que bobagem, tudo muda; quem vai se lembrar das promessas da semana passada?
E o Benjamin Lattaro, contratado para Gerente de Relações com o Mercado devido ao seu currículo e à insistente recomendação daquele que seria seu comandado? A primeira vista parecia uma incongruência; um funcionário recomendar seu futuro chefe. Mas foi o que aconteceu. A empresa precisava desesperadamente preencher aquela posição e o Gerente de Produtos se empenhou porque “conhecia um ótimo profissional”.
À medida que o Benjamin passou a se sentir bem na ”pele” de grande gerente, incorporou novas atitudes. Refletiu que o subordinado poderia se tornar uma ameaça; conhecia bem a empresa, seus clientes e fornecedores. Apresentava sempre novas idéias e soluções e tinha fácil acesso à diretoria. Tinha que se livrar dele! Começou a perseguí-lo, primeiro discretamente, depois sem nenhum pudor. Veio a sua grande chance, o momento supremo de tomar uma decisão definitiva. Aproveitando que o subordinado estava de licença, após uma operação de vesícula, mandou o Departamento de Pessoal preparar a papelada de demissão.
Mal voltou ao trabalho, o Gerente de Produtos foi chamado com urgência ao Pessoal. 0s colegas se entreolharam, já estavam sentindo o peso da situação. Até a Gerente Administrativa, geralmente tão sisuda, foi solidária. Tentou falar com o Presidente, que estava viajando. Finalmente, ao regressar, este mandou dizer que a situação seria revertida. 0ra, ora, entre dois executivos, que é preciso demitir desde quando se despede e melindra quem está numa posição superior, especialmente quando o seu trabalho se traduz em lucros para a empresa?
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