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Uma Raríssima Pérola A esperteza não é propriedade particular de ninguém. Inescrupulosos há aos montes, em qualquer lugar. Quem nasce com má índole, dificilmente será uma pessoa de bem. Quem dá golpes não tem nada em seu nome: carro, apartamento, celular ou o husky siberiano com impecável pedigree. Perante a lei é um pobre coitado, que apenas cometeu alguns deslizes. E já não falo nos políticos que se dizem injustiçados e incompreendidos pelo povo, mas invocam, rapidinho, as suas prerrogativas, direitos e imunidades !
Conversei várias vezes com o diretor de uma empresa alemã. Apesar de seu físico avantajado, falava pausadamente, em voz baixa, fazendo com que seus interlocutores, num mimetismo quase sincrônico, também se expressassem contida e educadamente. 0 herr direktor exigia muito de sua equipe, que o tinha em grande estima. Além de trabalhar até depois do expediente, ele representava o suprasumo da eficiência e honestidade. Ah, mas como nos enganamos! Ao pedir demissão para trabalhar no exterior, deixou as finanças da empresa em petição de miséria, de tal forma que a Diretoria da matriz enviou rapidamente uma comissão para verificar o que tinha acontecido na "promissora" filial Brasil!
Há também aqueles que juram que respeitarão "o combinado" mas, quando atingem os objetivos, esquecem os compromissos e desaparecem de circulação. Quem já não ouviu as queixas de hoteleiros e advogados que não conseguem receber o seu "dinheirinho"? No início, passado um tempo razoável, deixa-se o devedor em paz, para resolver, acredita-se, a forma de pagar as dívidas. A segunda etapa consiste em o credor telefonar, lembrando delicadamente o vencimento dos pagamentos. Como não consegue nenhuma solução, passa a escrever em tom ameaçador. Novamente, nada acontece, nem uma satisfação ou pedido de renegociação. Cansado, desapontado, o credor, que também tem os seus compromissos, usa o clássico e brasileiríssimo "laissez faire". É apenas uma forma de agir, um conformismo aparente, por que ele terá que arrumar outra fonte para honrar os seus compromissos, embora nunca mais se esqueça de quem o lesou.
Nesses anos de consultoria, meus sócios e eu fomos enganados duas vezes: uma por um banco brasileiro e a segunda vez por um banco estrangeiro. Depois de a gerência de recursos humanos afirmar que a candidata apresentada por nós não seria admitida, eis que, dois anos depois, recebemos a visita da moça, bibliotecária de profissão, que desejava apresentar um primo. Estava satisfeita em trabalhar no banco. Sim, aquele mesmo. Não havia falado nada até então porque estava cumprindo a exigência do empregador de ser discreta. Quanta fidelidade !
Fomos atrás do prejuízo (pode não ser a expressão correta, mas é o que se usa). 0s executivos armaram um “teatro” para não pagar. Zero para quem pensa que os intermediadores financeiros estão acima de qualquer suspeita. Depois de muita insistência, o banco acabou pagando, evidentemente sem juros, multa, correção monetária ou desculpas.
0 banco
estrangeiro também não quis honrar o compromisso. Os diretores
sabiam de tudo, mas, interessante, nunca eram encontrados. Os
pretextos eram os de sempre: viagens repentinas, visitas da matriz,
reuniões prolongadas noite adentro. Desanimada, pensei seriamente em organizar uma “vaquinha” para ajudar o banco a resolver os seus problemas de caixa. Foi quando apareceu um verdadeiro amigo - pérola rara entre milhões de conchas. Soube da história devido à sua perspicácia e sensibilidade em descobrir problemas e aflições das pessoas que o cercavam. Na época, ocupava a diretoria financeira de uma empresa que, coincidentemente, tinha uma conta gorda naquele banco. Foi objetivo e até ríspido em seu telefonema:
— Doug, a minha prima tem uma consultoria de recursos humanos, colaborou com o banco, mas diz que vocês se recusam a pagar os seus honorários.
- Impossível, meu caro! - Então verifique melhor, por que ela está documentada. Olhe, se vocês não pagarem o que devem em 24 horas, vou raspar a conta da empresa.
E desligou. Hora depois, foi agendada uma reunião urgente entre os interessados. No dia seguinte, o pagamento foi efetuado sem problema. Jamais esquecerei o gesto desse amigo, um herói para mim, porque arriscou a própria carreira. Poderia ter sido chamado à atenção (afinal, todo mundo tem um chefe, menos Deus), se aborrecido e pior, ser demitido. Poderia, mas não foi.
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