Lilly Paes Barreto

Você nunca sabe com quem está falando

0 meu vizinho cumprimenta os homens com um amabilíssimo  "professor ". Já as mulheres ganham o galanteio de "duquesa ". As aparências podem enganar: ele tanto pode ser um excelente relações públicas, como um  alcagüete disfarçado. Quanto aos que, correspondendo à  gentileza,  respondem papeando sobre diversos assuntos, é possível que estejam pensando em sair correndo do elevador, antes do fechamento do banco.

Segundo a moderna concepção tupiniquim de comportamento, o certo é ter jogo de cintura pois "careta" é o babaca que não sabe tirar vantagem das situações, ginga de malandro, olhar de lince, corpo pronto para qualquer eventualidade e diplomacia para desarmar o mais ardiloso negociador ou encrenqueiro. Assim, se a chefia resolver sobrecarregar o funcionário de trabalho, é preciso agüentar firme. Falar diretamente, expondo a situação, pode resultar num gesto largo, como quem diz: "Fique à vontade se quiser procurar outro emprego".

Um trecho de estrada é inaugurado. Palanque, discursos, banda de música. No comício, há lugar somente para auto-elogios e palavras inflamadas. No fundo, todos sabem que,  passada a euforia do momento, advém o esquecimento e, claro, outras   prioridades. Para os políticos, o importante é descerrar a placa, com o olhar e sorrisos fixos, para que os fotógrafos possam captar bem a "sinceridade" do momento. Nos meses seguintes, nenhum político mandará um representante para acompanhar a obra. Talvez a estrada nunca venha a ser terminada, mas que importância tem isso diante da obviedade da eleição daquele político? O povo? Ora, o povo!

Tenho amigos que trabalham em repartições do governo. Ficaram revoltados, como todos, quando veio uma ordem misteriosa e repentina,  praticamente da noite para o dia, de empacotar tudo rapidamente porque a repartição seria transferida para um novo local dentro de, no máximo, três dias. Talvez fosse uma boa idéia, mas não às pressas e com total falta de infra-estrutura.

0 que  havia lá? Rigorososamente nada, 0s móveis e equipamentos foram instalados em salas provisórias, num edifício fantasma, sem portas de banheiro,  tomadas para computador ou um restaurante, perdão, "pé sujo" para os comandados porque os   comandantes certamente seriam conduzidos de carro para bons restaurantes. Havia uma agência dos Correios? Puxa, seria pedir demais. Uma agência bancária, talvez? Claro que tinha, era só pegar dois ônibus, mas os funcionários podiam ficar despreocupados. Tudo tinha sido planejado cuidadosamente.Aí o contribuinte desavisado pergunta:

­ Pelo menos o ponto de ônibus é em frente?

 ­0 senhor não entendeu. Para chegar ao trabalho, vamos ter que andar vários quarteirões num descampado.

Tudo ficou claro. Ninguém sabia o nome do louco responsável pela mudança. Devia ser alguém muito prestigiado, com interesses próprios específicos para fazer aquela  mudança absurda. É, mas os poderosos só aparecem quando o bolo está pronto e só precisa ser levado à mesa.

Passei anos elogiando Hermann Andersen. De origem belga, morando há muitos anos no Brasil, falava  português fluentemente. Sem formação superior, era o tipo de profissional que, ao executar uma tarefa, não se dava por satisfeito até fazer um interface completo com os outros departamentos. Consciencioso, responsável, recebia cartas espontâneas de elogios de todas as empresas onde trabalhava.

As pessoas mudam, o vernáculo incorpora novas expressões e a mudança de hábitos afeta também a própria organização familiar. El Niño ou não, a questão é que o clima é diferente no mundo todo e aqueles que podem, tiram  os esquis do armário e praticam o esporte em plena Avenda Atlântica. Hermann, com três filhos pequenos, traiu a esposa com a filha de um rico fazendeiro A princípio era um caso, mas com os irmãos vigiando e o fazendeiro atento, o jeito foi se juntar à jovem, abandonar a família e se acostumar com a vida de interior.Na verdade, creio que não foi tão forçado assim; as suas ponderações com o travesseiro devem tê-lo orientado para uma vida mais fácil e confortável.

 Na.empresa, os diretores estranharam o seu súbito desaparecimento, sem nenhuma comunicação. Juntamente com os  ex-colegas, levantaram um dinheiro para a esposa abandonada, deram conselhos e até tentaram lhe conseguir um emprego. Pobre Hermann, na pressa de fugir, tinha deixado dinheiro suficiente apenas para dois dias de leite em pó Todos pensarvam  "Quem diria, tão bom moco, como foi fazer uma sujeira dessas?"

0  tempo foi passando. Hermann com a mocinha fazendeira, certamente dormindo em cima de colchões recheados de dólares, os filhos pedindo a presença do pai e a ex-esposa, sem qualificação profissional, procurando emprego. 

Mas nunca se sabe com quem se fala. Os samurais já diziam que o verdadeiro rosto só deve aparecer no próprio espelho. Para conviver bem. é preciso sorrir mesmo quando se está deprimido. Pensando bem, está certo, por que deveríamos ficar desprotegidos e ter os nossos sentimentos devassados por pessoas que mal sabem o nosso nome? Mas voltemos ao Andersen. Um dia, a ex-esposa, preterida e abandonada, anunciou aos quatro ventos que levaria as crianças a Mato Grosso para conviver com o pai que "não pode mais fugir das suas responsabilidades". Hoje, o belga vive muito bem, obrigada, com seus seis filhos (três  de antes, um durante e dois depois) e duas amantíssimas mulheres - Matriz e Filial.

(x) lillyleonie@terra.com.br

Consultora, Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental.

Autora de "Como se Livrar de Um Executivo Incômodo"  (Litteris)

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