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Você nunca sabe com quem está falando 0
meu vizinho cumprimenta os homens com um amabilíssimo "professor ". Já as mulheres ganham o galanteio de
"duquesa ". As aparências podem enganar: ele tanto pode ser um
excelente relações públicas, como um
alcagüete disfarçado. Quanto aos que, correspondendo à
gentileza, respondem
papeando sobre diversos assuntos, é possível que estejam pensando em
sair correndo do elevador, antes do fechamento do banco. Segundo
a moderna concepção tupiniquim de comportamento, o certo é ter jogo de
cintura pois "careta" é o babaca que não sabe tirar vantagem
das situações, ginga de malandro, olhar de lince, corpo pronto para
qualquer eventualidade e diplomacia para desarmar o mais ardiloso
negociador ou encrenqueiro. Assim, se a chefia resolver sobrecarregar o
funcionário de trabalho, é preciso agüentar firme. Falar diretamente,
expondo a situação, pode resultar num gesto largo, como quem diz:
"Fique à vontade se quiser procurar outro emprego". Um
trecho de estrada é inaugurado. Palanque, discursos, banda de música. No
comício, há lugar somente para auto-elogios e palavras inflamadas. No
fundo, todos sabem que, passada
a euforia do momento, advém o esquecimento e, claro, outras prioridades. Para os políticos, o importante é
descerrar a placa, com o olhar e sorrisos fixos, para que os fotógrafos
possam captar bem a "sinceridade" do momento. Nos meses
seguintes, nenhum político mandará um representante para acompanhar a
obra. Talvez a estrada nunca venha a ser terminada, mas que importância
tem isso diante da obviedade da eleição daquele político? O povo? Ora,
o povo! Tenho
amigos que trabalham em repartições do governo. Ficaram revoltados, como
todos, quando veio uma ordem misteriosa e repentina,
praticamente da noite para o dia, de empacotar tudo rapidamente
porque a repartição seria transferida para um novo local dentro de, no máximo,
três dias. Talvez fosse uma boa idéia, mas não às pressas e com total
falta de infra-estrutura. 0
que havia lá?
Rigorososamente nada, 0s móveis e equipamentos foram instalados em salas
provisórias, num edifício fantasma, sem portas de banheiro,
tomadas para computador ou um restaurante, perdão, "pé
sujo" para os comandados porque os
comandantes certamente seriam conduzidos de carro para bons
restaurantes. Havia uma agência dos Correios? Puxa, seria pedir demais.
Uma agência bancária, talvez? Claro que tinha, era só pegar dois ônibus,
mas os funcionários podiam ficar despreocupados. Tudo tinha sido
planejado cuidadosamente.Aí o contribuinte desavisado pergunta:
Pelo menos o ponto de ônibus é em frente? 0 senhor não entendeu. Para chegar ao trabalho, vamos ter
que andar vários quarteirões num descampado. Tudo
ficou claro. Ninguém sabia o nome do louco responsável pela mudança.
Devia ser alguém muito prestigiado, com interesses próprios específicos
para fazer aquela mudança
absurda. É, mas os poderosos só aparecem quando o bolo está pronto e só
precisa ser levado à mesa. Passei
anos elogiando Hermann Andersen. De origem belga, morando há muitos anos
no Brasil, falava português
fluentemente. Sem formação superior, era o tipo de profissional que, ao
executar uma tarefa, não se dava por satisfeito até fazer um interface
completo com os outros departamentos. Consciencioso, responsável, recebia
cartas espontâneas de elogios de todas as empresas onde trabalhava. As
pessoas mudam, o vernáculo incorpora novas expressões e a mudança de hábitos
afeta também a própria organização familiar. El Niño ou não, a questão
é que o clima é diferente no mundo todo e aqueles que podem, tiram
os esquis do armário e praticam o esporte em plena Avenda Atlântica.
Hermann, com três filhos pequenos, traiu a esposa com a filha de um rico
fazendeiro A princípio era um caso, mas com os irmãos vigiando e o
fazendeiro atento, o jeito foi se juntar à jovem, abandonar a família e
se acostumar com a vida de interior.Na verdade, creio que não foi tão
forçado assim; as suas ponderações com o travesseiro devem tê-lo
orientado para uma vida mais fácil e confortável. Na.empresa,
os diretores estranharam o seu súbito desaparecimento, sem nenhuma
comunicação. Juntamente com os ex-colegas,
levantaram um dinheiro para a esposa abandonada, deram conselhos e até
tentaram lhe conseguir um emprego. Pobre Hermann, na pressa de fugir,
tinha deixado dinheiro suficiente apenas para dois dias de leite em pó
Todos pensarvam "Quem
diria, tão bom moco, como foi fazer uma sujeira dessas?" 0 tempo foi passando. Hermann com a mocinha fazendeira, certamente dormindo em cima de colchões recheados de dólares, os filhos pedindo a presença do pai e a ex-esposa, sem qualificação profissional, procurando emprego. Mas
nunca se sabe com quem se fala. Os samurais já diziam que o verdadeiro
rosto só deve aparecer no próprio espelho. Para conviver bem. é preciso
sorrir mesmo quando se está deprimido. Pensando bem, está certo, por que
deveríamos ficar desprotegidos e ter os nossos sentimentos devassados por
pessoas que mal sabem o nosso nome? Mas voltemos ao Andersen. Um dia, a
ex-esposa, preterida e abandonada, anunciou aos quatro ventos que levaria
as crianças a Mato Grosso para conviver com o pai que "não pode
mais fugir das suas responsabilidades". Hoje, o belga vive muito bem,
obrigada, com seus seis filhos (três
de antes, um durante e dois depois) e duas amantíssimas mulheres -
Matriz e Filial. Consultora,
Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental. |