Lançamento do livro da escritora brasileira  Clevane Pessoa: "Mulheres de sal, Água e Afins"

22/11/2006 09h01

Mulheres de Sal, Água e Afins
Imagem:Capa de Fábio, para Mulheres de Sal, Água e Afins.

22/11/2006 09h01
Mulheres de Sal, Água e Afins
Imagem:Capa de Fábio Fern , para Mulheres de Sal, Água e Afins.

Do ofício de escrever, entendo desde criança. Nem acredito que escrevo há tanto tempo. Meu marido, engenheiro, se viu na contigência de levar a família nas mudanças para locais onde trabalhava em obras. Os livros e a papelada da esposa iam juntos. Justiça seja feita, conformou-se. Antes dele, no meu primeiro casamento, o marido era poeta e mandou para nosso apartamento em Vila Isabel, no Rio, a salvo, uma Kombi cheia de exemplares e papéis. Fui ver o apê depois de casada e me deparei com uma saleta com uma pilha de papel até quase o teto, pois a estante ainda não fora comprada... Antes, um noivo de Maringá, no Paraná, teve de obedecer ao meu condicional: "Só caso e mudo se tiver estantes para meus muitos livros e papéis". Desejoso de agradar, até lançou uma revista com minha foto, onde eu trabalharia, porque a Gazeta Comercial, minha paixão, era de Juiz de Fora... Mas este último, Eduardo, entendeu bastante minhas paixões e ele também usava um sem número de lápis, papel, agendas e material de escritório. Adorávamos entrar em papelarias. Apenas, ele era o cônjuge dos cálculos e projetos. Eu, a cônjuge da eterna criação e dos desenhos.

Após a passagem do marido engenheiro, cá estou, fazendo haicais, trovas nas páginas ainda vazias de várias agendas dele, herança que ainda conserva, por certo, sua energia forte e bem canalizada. Noutro dia percebi que, a meu lado, na cama de casal, coloquei essas possibilidades de ser fiel à inspiração. Escrevo no escuro, de madrugada, acendo a luz, os pardais me acordam para registrar o esboço de um conto. No ônibus, no campo. Em bulas de remédios, talonários de cheques, centenas de anotações.

Ontem, fui ministrar uma palestra sobre auto-estima, no ótimo curso de Atualização Cultural, de D. Ivani Carvalho, aqui em Belo Horizonte, onde passei duas horas, comum intervalo para cafezinho, em pé, a me movimentar(não gosto muito de falar sentada) e, ao sair,parei em uma livraria por atacado. Lembrei-me muito de meu companheiro, que sairia carregado de objetos.

Bem, eu também não resisti: três caixas enormes, azuis (ah, cor da capa do novo livro, acabo de dar-me conta), uma prancheta, uma caixa de lápis aqüareláveis, pastas plastificadas, papel colorido para a impressora... "Resistir, quem há de?" Decerto, quem não escreve muito. Ou maníaco por uma casa asséptica, de revista de decoração.

Tinha contos e mais contos, mas para baratear os custos, resolvi fazer uma trilogia. Nessa primeira parte, protagonismo feminino. Contos inéditos e contos premiados. Um tanto de mim e de meu ouvido produtivo de psicóloga. Mas ficcção, apenas. O editor me conta que mencionou a um amigo esse olhar de gênero... Uma espécie de literatura feminina.

Na contracapa, foi colocada uma foto recente, onde estou no palco do teatro Chico Nunes, em Belo Horizonte, no espetáculo criado por Dayanne Timóteo “Poesia Abraça a Música”, o editor escreve:


“MULHERES DE SAL, ÁGUA E AFINS
não é um livro feminino, muito menos erótico,
menos ainda pornográfico.
É tudo isso junto num movimento
permanentemente criador.”

Trata-se de um trecho do prólogo que escreveu para mim, com sua prosa poética e sua aguda percepção do Outro. Eu.

Na troca e na soma dos e-mails e telefonemas, muitas considerações entre eu e João de Abreu Borges, poeta e editor, que assina o jornal virtual literário “Ano Um” e que por este selo, editaria meu livro. Agora, ele retornou à Editora Urbana. E o livro sairá com o selinho da coruja, ave de meus olhares encantados.

Numa barra de Assuntos (do Outlook), ele colocou: "Mulheres, sal e água". Achei que seria o título ideal.
Mulheres são afeitas às lágrimas. Regidas pelos ciclos somáticos, menarca, menstruação, gestação, parto, climatério e menopausa. Ufa! Chamei então, ao novo filho, "Mulheres de Água, Sal & Afins”. No vai-e-vem das idéias, de repente, era "Mulheres de Sal, Água e Afins". Tudo bem.

Sabem aquelas portas de mola, tipo cowboy, dos saloons dos filmes de faroeste? Firmemente presas, mas permitindo a circulação necessária, a entrevisualização do dentro e do fora. Assim é minha troca e soma com o João. Temos coisas em comum. Nos anos de chumbo, tivemos, sem ser guerrilheiros, a militância dos poetas que não compactuavam com o regime, nas atitudes e nos olhares. Ambos gostamos de água. Um de meus livros se chama “Asas de Água” e um dos dele, “Oração Água”. Somos ambos místicos, sem fanatismo. Afeitos à meditação. A buscar a generosidade e a compreensão de ser da coisas e das pessoas.

As capas prováveis foram criados pelo Fábio Fern,, duas com meus desenhos a bico-de-pena. Mas quando vi a capa com o mar (veja, na imagem aí em cima), escolhi-a de pronto. Sou de origem e de signo de águas. A massa fluida, o mistério e o movimento delas me fascina. Atrai-me e me aterroriza, pois uma vez, na Ilha de Fernando de Noronha, pequenina, quase fui arrastada para um “caldeirão” (*)

Pronta a capa, resolvi aproveitar alguns contos com meus desenhos a bico-de-pena. Paciente, João trabalha nas ilustrações. Talvez im/paciente, com meus pedidos, mas demonstra apenas firmeza e amor a esse trabalho. Qualquer impaciência, camuflada em tiradas geniais ou bem humoradas.

E me instrui: “Vá fazendo os desenhos para o próximo livro da trilogia, para manter seu estilo, os traços deste que está sendo lançado agora”. E então, falamos por um bom tempo, desses desenhos. A um, chamo “Mulher des/costurada”.

Não estamos sempre nos refazendo e desfazendo? Ele próprio prefere a palavra nua e pura, sem debuxos. Mas me permite, largamente, usar minhas asas sempre em movimento.
Considero as relações entre editor e autor, sagradas. Consagradas ao livro. Sacralizadas.
E me dou por feliz por ter encontrado o editor certo. Mesmo eu estando aqui em Belô, a capital mineira e ele na cidade maravilhosa...

Agora, ”O Anúncio do Acontecido” . Depois, do que acontecerá: autógrafos, recitais, encontros, palestras. Aguardem.

Clevane Pessoa de Araújo Lopes
Belo Horizonte, novembro de 2006

Membro da Rede Brasileira de Escritoras(REBRA), da ABRACE(Brasil Uruguai), do CLESI (Clube dos Escritores de Ipatinga,MH),da ALPAS(A Palavra do Século XXI,de porto Alegre, MG), entre outras associações artístico -literárias.

(*)"Caldeirão":como os nativos da Iha chamam a um grande remoinho, círculos que arrastam para um centro,formado por ondas cruzadas.No caso do caldeirão, trata-se daquele movimento circular e forte,da superfície da água para o fundo, em espiral.Quase morro...também chama-se redemoinho.

Serviço:

Editora Urbana:
Rua Alcindo Guanabara 17/1202-Cinelândia
CEP 20031-130 - Rio de janeiro - RJ
(21) 9682-8364
(21) 2244-5970

http://planeta.terra.br/arte/anoum (provisório)

Voltar