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RIOS, CINCO POETAS EM COLETÂNEA. por Ricardo Alfaya Na noite de cinco de setembro
de 2003, no Bistrô do Livro, em Ipanema, deu-se o lançamento de
"Rios", coletânea de cinco poetas da cena carioca: Elaine
Pauvolid, Márcio Catunda, Ricardo Alfaya, Tanussi Cardoso e Thereza
Christina Rocque da Motta, reunidos a convite de Márcio Catunda,
organizador e promotor da obra, editada pela Ibis Libris, do Rio de
Janeiro-RJ, 168 p.. A coletânea reúne quatro
dos mais significativos nomes da geração 80, Márcio Catunda, Ricardo
Alfaya, Tanussi Cardoso e Thereza Christina Rocque da Motta. São
escritores com vastos e consolidados currículos, inúmeras premiações,
além de inclusões em seleções críticas de valor histórico,
achando-se em pleno apogeu como escritores. Além deles, o grupo se
completa com a talentosa poeta da geração 2000, Elaine Pauvolid, que vem
acumulando uma série de referências elogiosas em sua fortuna crítica. Seguindo-se a ordem de
entrada no livro, alfabética, falo um pouco da participação de cada um
dos autores, com base nas matérias escritas sob os títulos "Rios,
Mais Imagens de um Lançamento", feita para o blog Nozarte Cultural,
do qual sou editor, e "Rios, Imagens de um Lançamento",
reportagem-resenha publicada no site "PD-Literatura", editado
por Asta Vonzodas, Silvana Guimarães e grupo. Ambos, de
setembro de 2003. ELAINE PAUVOLID - Elaine
Pauvolid, 1970, trouxe para Rios 45 poemas, entre médios e curtíssimos,
extraídos de cinco obras, sob o título "Donde Evade". Sete
vieram de "Brindei com Mão Serenata o Sonho que Tive durante Minha
Noite Estrela...", Imprimatur/Sete Letras, Rio de Janeiro, 1998;
Sete, de "Trago", ed. Autora, 2002; Nove, de
"Interiores", inédito (1999-2000); Quatro, de "Fio Tênue",
inédito (2000-2001); Dezoito, de Leão Lírico, inédito (2002-2003).
Auto-ironia, lirismo, intensidade dramática, misticismo à flor da pele,
a busca do eu têm feito com que Elaine desenvolva uma dicção muito
forte e peculiar, na qual os inúmeros recursos da poesia atual se
submetem antes de tudo às intenções da poeta. Elaine tem sido capaz de
voltar-se tanto para o cotidiano quanto para os aspectos mais íntimos do
eu. Ora formal, sombria, súplice, religiosa, lembrando o estilo de alguns
surrealistas hispânicos. Ora de uma irreverência desconcertante na
construção do texto. E, também, as duas coisas, como no poema
"Imprudência Vã". "Contraditória e calma",
assim fala de si em "À Soleira da Porta" . Por sua vez, o título
"Donde Evade" sustenta um híbrido de afirmação e
interrogação, bem a seu gosto, uma vez que na verdade não se determina
claramente "donde evade", nem mesmo no poema-título, pois,
"Donde evade o som da minha letra / há um espaço insondável".
Essa a busca de Elaine Pauvolid. Cumpre acrescentar que, embora tenha
estreado apenas em 1998, além do aplauso dos integrantes de Rios,
seu trabalho já recebeu análises escritas de Gerardo Mello Mourão,
Simone Ostrowski e Wilson Figueiredo. Vale frisar sua atividade como
crítica literária, escrevendo resenhas, desde 1999, como freelancer,
para o Jornal do Comércio, O Globo e Jornal do Brasil. A partir de
2000, começou a colaborar com crônicas para o Jornal da Tarde, de São
Paulo, coluna "Arte pela Arte", de editoria de José Nêumanne
Pinto, também como freelancer. Idealizou e organizou o evento Sarau
João do Rio, em livraria homônima no Catete e o projeto Novos Sentidos,
que incluía recitais em diversas locações do Rio. É editora de
duas publicações literárias virtuais: "Aliás" e o blog
"Dimproviso". Na opinião de Thereza Christina Rocque de
Motta, em Rios, a geração 2000 se viu "muito bem representada por
Elaine Pauvolid". MÁRCIO CATUNDA - Cearense de
nascimento, Márcio Catunda, 1957, formou-se em Direito e em Diplomacia,
vivendo por isso constantemente no exterior. Atualmente se encontra em
"Santo Domingo, República Dominicana". Sua parte em Rios,
intitulada "Engenho Urbano", é inteiramente dedicada à cidade
do Rio de Janeiro, na qual tem familiares, amigos e onde residiu durante
muito tempo. A obra é bem apresentada por Jarbas Júnior, que ressalta no
autor a capacidade de "captar estas antíteses líricas e
sociais" do Rio. Contrastes que marcam a cidade na qual residem os
outros quatro integrantes da coletânea, sendo três aqui nascidos,
Elaine, Ricardo e Tanussi. A quarta, Thereza Christina, é paulista de
nascimento, aqui vivendo por opção desde 1999, tendo estabelecido a
editora Ibis Libris nesta Cidade. Vale ainda mencionar que,
apropriadamente, Jarbas Júnior ressaltará em Márcio tanto a riqueza das
imagens quanto a vocabular, bem como "suas insólitas variações rítmicas".
Os poemas de Márcio, até então inéditos, foram todos escritos para
esse livro. Ricardo Alfaya, em artigos para o "Nozarte
Informativo Impresso e Eletrônico" e para o "Aliás", de
Elaine Pauvolid, ressaltará no autor sua dupla vocação, tanto para a
poesia lírica quanto para a épica. Seu lirismo se mostra por vezes
solar, de discurso simples e direto, vinculado aos elementos da natureza.
Em outros, assume feição simbólica no qual se percebe grande apuro na
criação de imagens e no uso de requintado vocabulário. Por fim,
quando épico, sua poesia, adquire um tom grave, expressando-se com veemência
na defesa dos oprimidos e em favor das causas sociais, ao mesmo tempo em
que se exercita sobre episódios históricos. Organizador e promotor
desta coletânea, com 28 títulos publicados, entre livros
individuais, CDs e CD-Roms, sua obra, além dos críticos já citados, e
dos integrantes desta, tem recebido referências, entre outros, de Jáder
de Carvalho, José Alcides Pinto, Moreira Campos. Todos poetas que
foram, como o próprio Márcio, selecionados para a antologia "A
Poesia Cearense no Século XX", organizada por Assis Brasil, pela
Imago, Rio de Janeiro, 1996. Após viagens à Espanha, apaixonou-se
de tal forma pelo país, que está atualmente escrevendo o longo
poema épico "De Todas las Histórias, la História", sobre a
História de Espanha. RICARDO ALFAYA - Ricardo Alfaya, 1953, trouxe "Sujeito a Objetos", reunindo 25 poemas. A questão do "dentro e do fora" na poesia, da transcendência ou não do objeto artístico, dos paradoxos do cotidiano, do conflito entre o ser e a matéria, acham-se em sua escrita desde 1982, quando Thereza Christina Rocque da Motta e Eva Creuza de Oliveira fizeram os prefácios de "Através da Vidraça", seu livro de estréia. Thereza comentou que a obra assinalava a "inegável voracidade" do autor. Ela também notaria, que "poeta e paisagem confundem-se, entre observador e objeto, para ressurgir após, como questionador das manhãs". Fragmentação ou multiplicação do eu? De certo modo, ambos. Porém, a consciência que se expande carrega em si ânsias de totalidade. Portanto, há em sua poesia uma perspectiva gestaltiana, holística, incorporadora de formas e conteúdos. O exercício simultâneo em vários gêneros como o minimalimo, o neoconcretismo, o discursivo livre, o metrificado, a poesia visual demonstram-no quanto à forma. A variedade temática, quanto ao conteúdo. Participa de 21 antologias, obteve 23 prêmios literários, dos quais destaca, além da presença nesta coletânea: sua inclusão por Leila Míccolis no "Projeto Brasil 500 Anos de Poesia", seleção dos nomes mais significativos da poesia brasileira. Referência equivalente, pelo Doutor em Letras Joaquim Branco, em obra de 1998 para a FAFIC, faculdade de Cataguases-MG. Premiação por Affonso Romano de Sant'Anna de poema de sua autoria, em concurso. Comentaram favoravelmente trabalhos seus: Almandrade, Ana Peluso, Antonio Carlos Secchin, Artur da Távola, Avelino de Araújo, Branca Bakaj, Clemente Padín (Uruguai), Dalila Teles Veras, Erorci Santana, Eunice Bueno, Giovanni Campisi (Itália), Goulart Gomes, Helena Ortiz, Hugo Pontes, Iacyr Anderson Freitas, Ilma Fontes, Jean Paul Mestas (França), João Scortecci, Lau Siqueira, Lourival Farias Sodré, Luiz Alberto Machado, Moacy Cirne, Nilto Maciel, P.J. Ribeiro, Regina Pouchain, Robson Achiamé, Rodrigo de Souza Leão, Rogel Samuel, Rogério Salgado, Ronaldo Cagiano, Sérgio Fumich (Itália), Silvana Guimarães, Silvério da Costa, Soares Feitosa, Teresinka Pereira (EUA), Uilcon Pereira, Urhacy Faustino, Vânia M. Diniz, Yêda Schmaltz, Zanoto, e outros. TANUSSI CARDOSO - Tanussi
compareceu com "A Medida do Deserto e outros poemas revisitados".
Dos 29 apresentados, três são de "Boca Maldita",
Edições Trote, 1982. Outros sete são oriundos de "Beco com Saídas",
Edicom, 1991. Os 14 restantes, inéditos em livro. O social
visto pela óptica do existencial, o mergulho em temas universais, como a
morte e o amor, têm sido uma constante na poesia desse poeta que, num
procedimento que às vezes recorda Dante, ousa viajar (lembremo-nos de
"Viagem em Torno de", 2000) além dos limites impostos.
Empregando-se uma terminologia utilizada por Aldous Huxley, pode-se dizer
que seu movimento tanto se faz num sentido descendente, indo aos infernos
e abismos, quanto num sentido ascendente, colhendo sonhos e imagens
que o "desconhecido" lhe fornece. Ao mesmo tempo, tais poemas
convivem com outros bem mais leves, até irreverentes, como um de seus
mais conhecidos, em alusão a Humphrey Bogart. Em plena maturidade da
escrita, Tanussi revela em "A Medida do Deserto" vocação
para a poesia reflexiva, profundamente observadora, capaz de extrair das
coisas, dos seres e dos acontecimentos, mesmo dos mais simples e
cotidianos, os mais recônditos segredos. Destaca-se em seu currículo:
obteve oito vezes o primeiro lugar em concursos literários, entre os
quais o 1° lugar no Concurso de Arte, Prosa e Poesia da UBENY (União
Brasileira de Escritores, de Nova York). Incluído por Leila Míccolis
na seleção "Projeto Brasil 500 Anos de Poesia".
Seu poema "Miragens" publicou-se em cartão da Telemar, 200.000
exemplares. Seu livro "Viagem em Torno de" recebeu o Prêmio
ALAP de Cultura e o Prêmio Capital Nacional 2000, do jornal "O
Capital", de Aracaju-SE. Dentre os vários críticos e
escritores que avaliaram positivamente sua poesia: Affonso Romano de
Sant'Anna, Anderson Braga Horta, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Nejar,
Fabrício Carpinejar, Fernando Py, Gerson Valle, Jomard Muniz de Brito,
Jorge Domingos, Luiz Horácio Rodrigues, Marcello Rollemberg, Marcus
Vinicius, Newman Sucupira, Nicodemos Sena, Olga Savary, R. Leontino Filho,
Ronaldo Cagiano, Silvério da Costa. Por fim, coordenou o evento
cultural Segunda com Arte, no qual se apresentaram, entre outros, Ferreira
Gullar, Geraldo Carneiro, Artur da Távola, Moacyr Félix, Armando Freitas
Filho, Afonso Felix de Souza. THEREZA CHRISTINA ROCQUE DA MOTTA - Thereza Christina Rocque da Motta, 1957, fundou o grupo Poeco, São Paulo-SP, em 1980, lançando cinco antologias. Em 2000, criou a Ibis Libris, no Rio de Janeiro, produzindo várias obras. Inicia-se com "Relógio de Sol" (1980) e "Papel Arroz" (1981), em parceria com João Ricardo Scortecci de Paula e Celso de Alencar. Individualmente, "Joio & Trigo", Poeco, 1982; "Areal", Dolfin e Geração Editorial, 1995; "Sabbath", Blocos, 1998; "Alba", Ibis Libris, 2001; "Chiaroscuro - Poems in the Dark", em inglês, Ibis Libris, 2002; "Lilases / Lilacs", bilíngüe, Ibis Libris, 2003, e o pôster-poema "Décima Lua" (1983). Oferece em Rios sua caixa de "Pandora", com 25 poemas, quase todos inéditos. Na obra prevalecem características líricas que evocam um certo surrealismo. Não um surrealismo penumbroso, mas frágil, posto que sublinha a inconstância e impermanência dos seres e das coisas. O tempo é como que suspenso, imagens arquetípicas transitam do passado para o presente e vice-versa. Sente-se também às vezes, quase tão fugaz quanto somente tudo pode ser, um rarefeito aroma do vinho que Anacreonte ousou servir a seus convivas. Toques de sensualidade e dança pagã notam-se em "Pandora", caixa que, depois de aberta, tal qual no mito, quão pouco resta: só a esperança. Aliás, interpretando-se "Pandora" como metáfora do próprio livro, sendo esperança tudo que na caixa de Pandora resta, logo, a esperança que resta é a poesia. Poetas como Cláudio Willer e Ivan Junqueira fazem parte de suas relações literárias. É ainda membro e diretora da Rebra, Rede Brasileira de Escritoras e da Libre, Liga Brasileira de Editoras. É coordenadora do evento "Ponte de Versos", juntamente com Ricardo Muniz de Ruiz e Gilson Maurity. Entre outros, escreveram sobre sua poesia: Luiz Carlos Lisboa, José Nêumane Pinto, Astrid Cabral e Olga Savary. Sendo que Olga a incluiu na "Antologia da Nova Poesia Brasileira", RioArte, 1992. Teve poemas publicados em "Poesia Sempre", n° 14, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2001. Faz parte do "Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (Escrituras, 2002), organizado por Nelly Novaes Coelho. Consta da "Enciclopédia de Literatura Brasileira", de Afrânio Coutinho, Global, 2001, atualizada por Rita Moutinho e Graça Coutinho.
___________________ Ricardo Alfaya, Rio de Janeiro, 10 de outubro de 2003. http://nozartecultural.blog.aol.com.br/
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