

Livro O Rádio, O Futebol
E A Vida
Do Jornalista e Radialista Profissional
Flávio Araújo
flaypi@uol.com.br
Estou chegando ...
Pedem-me uma pequena biografia que introduza minha modesta participação. A princípio pareceu-me desnecessário. Como me vejo todos os dias frente ao espelho de meu banheiro, quando me levanto, julgo que sou sempre o mesmo. As rugas não são detectadas. Como também o espírito não envelhece e depois de um certo tempo, já que só ele, teimosamente, vai cumprindo a jornada, tenho a pretensão de achar que ainda se lembram de mim. Quem me ouviu deve se lembrar, mas como hoje os veículos de comunicação são outros, uma juventude cada vez mais atuante sentou praça , dita o rumo das coisas e não está nem aí prôs coroas, devo mesmo me apresentar. De resto, faz mesmo muito tempo que terminou o meu período de narrador-esportivo mesmo que teime em continuar trabalhando. Costumo dizer que antes de nós, nossos avós já me ouviam. Do baixo dos meus 71 julhos tanta água se moveu... Nasci em Presidente Prudente, na época orgulhosamente chamada de “A Capital do Sertão”. É hoje, com todas as adversidades que nosso país atravessa uma progressista cidade oeste paulista. No meu tempo de garoto era um esboço de cidade. Hoje tem universidades e tudo mais que o progresso traz.. Ali comecei no rádio em 1950, na explosão das acnes adornando minhas faces. Depois de 7 anos fui viver o rádio da grande cidade. São Paulo foi o meu destino. Rádio Bandeirantes o meu ninho. Mas para dar conta de não me tornar inadimplente na segunda quinzena tinha que me virar em diversos empregos, na verdade, trabalhos. Jornais, outra rádio, ia de madrugada até ... madrugada. Mas que era bom, isso era ! Vi Pelé começar e também irradiei sua despedida. Diz o Milton Neves no prefácio de meu livro “O Rádio, o Futebol e a Vida”, da Editora Senac, que ninguém narrou mais gols do Rei do Futebol do que o velho aqui. No Brasil e no exterior. Não sei se é verdade. Nunca contei. Mas que foram muitos, não dá pra esconder. O principal deles está inserido no filme “Pelé Eterno”, escolhida que foi minha narração do milésimo gol para a produção do Oswaldo Massaini. Também narrei praticamente toda a carreira do pugilista Eder Jofre, desde suas preliminares no Pacaembu em São Paulo, até os memoráveis combates no exterior e o pendurar das luvas. Estive presente no primeiro mundial conquistado por um brasileiro nas pistas de automobilismo. Monza, Itália, “Emerson Fitipaldi, campeão mundial, coloca nas nuvens o nome do Brasil...” Por 10 anos vivi entrando e saindo de avião para acompanhar os grandes prêmios da Fórmula Um. Das Copas do Mundo de futebol fiquei freguês. Só não estive na de 1958 quando engatinhava no rádio de São Paulo. Depois, de 1962, Chile, até Espanha, 1982, quando deixei de narrar, acompanhei de pertinho todas elas vibrando com a alegria do futebol. Foram 6 Copas do Mundo com a do México em 1970 sendo por mim considerada como a epopéia. Passando a comentarista-esportivo e nessa função, trabalhei no rádio até pouco tempo atrás, quando (em 2003) dei descanso (dos microfones) às cordas vocais. Tive muitos filhos, plantei algumas árvores em minha jornada (não vale dizer que já morei numa chácara) e escrevi um livro. Unzinho, mas que me proporcionou e ainda me proporciona, uma imensa felicidade. Escrevo, porém, rotineiramente. Mantenho uma coluna no jornal Agora/São Paulo, o líder de venda nas bancas de Sampa. O título da mesma é “Em Cima da Bola” que era como me designavam quando descrevia o que acontecia num campo de futebol. Na verdade não concordava muito com esse prefixo já que achava que narrava tudo o que fizesse parte do jogo. Pretensão. Mas a marca sempre me acompanhou. Ainda escrevo uma outra coluna para jornais do interior de São Paulo, com base no “O Imparcial” de minha cidade natal, um jornal regional de excelente penetração, qualidade e tiragem. É a “Charanga Domingueira” que está a disposição de quaisquer outros jornais que possam se interessar. Na infância queria ser advogado para me dedicar a combater as injustiças do mundo. Sentia bater no peito a heróica pancada e só queria estudar na São Francisco. Como era impossível, minhas leituras me satisfizeram e o microfone me realizou. Estudar, só muito depois. Rato de biblioteca, li quase todos os livros que nunca pude comprar. Depois de adulto adquiri muitos deles e se pudesse pedir algo ao bom Deus pediria tempo para lê-los novamente. Como sei que seria pedir demais, vou tocando meu barquinho no Rio Pardo, que corta a cidadezinha onde moro. Não é o Tejo, mas é o rio da minha aldeia, tão belo e grande como o de Fernando Pessoa. Moro em Águas de Santa Bárbara, uma pequena estância hidro-mineral no centro do Estado de São Paulo e que para mim, felizmente, não foi ainda descoberta pelos turistas. Muito verde, a melhor água do Brasil, muito oxigênio para alimentar nossos pulmões nas caminhadas que eu e minha mulher, Yvetinha, poeta, escritora, ela sim, eu sou apenas um arremedo, fazemos pelas margens do rio que corre célere em seu leito pedregoso, não fora esta uma região vulcânica. Está dito. Espero encontra-los outras vezes nesta minha primeira incursão pelos caminhos da comunicação eletrônica.
Flávio Araújo, jornalista e radialista profissional. Correspondência para o e-mail: flaypi@uol.com.br