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A História, Essa Que Escrevemos São muitas as vezes em que me surpreendo a olhar para dentro de mim. Isso acontece sempre que os fatos ou fatores externos parecem-me adversos. O tempo e a idade ensinaram-me a sopesar ações, atitudes e olhares, e essas coisas chegam-nos de modo tão insignificante... É que nos conhecemos melhor a cada dia. E a cada dia nos sabemos menos perfeitos do que nos imaginávamos antes. Há mais de quarenta anos, menino aprendiz de profissional no intencionalmente falido Banco do Estado de Goiás, aprendi algo importante demais a partir de uma frase simples: "A maior preocupação dos imbecis, elevados à categoria de chefe, é ostentar autoridade" (Dante Veoléci). Foi meu colega Fábio José da Silva quem a datilografou, ante a prepotência de um chefete (hoje falecido) a intrometer-se em conversa nossa. E aí... Bem, a gente cresceu; e aquele chefe, sem mudar sequer os tons discretos de seus ternos, morreu. Aqueles eram os primeiros anos de uma ditadura de duas décadas e meia. Tempo bastante para asfixiar nossa juventude, impedir-nos um crescimento livre, como deve ser todo crescimento. Vimos o regime acabar quando já éramos quarentões e nossas oportunidades morriam na praia dos anos maduros. Depois, vimos o poder da União remunerar (ou estimular os Estados a fazer o mesmo) com as tais "vítimas da ditadura", desde que o pretenso beneficiário provasse ter sido detido por horas, ao menos, em nome das liberdades suprimidas. O erário paga, que os daquela decantada "esquerda" são ágeis na manipulação de fatos e até mesmo provas. A nós, vítimas evidentes da supressão das liberdades, nada foi oferecido. E nós sequer pleitearíamos benesses sob tal chancela. Triste foi ver falsos ícones arvorarem-se de heróis. E os parlamentos referendarem tais excrescências em nome de uma História ainda não escrita. Nós, vítimas reais do silêncio e de um total cerceamento das oportunidades, construímos silenciosamente os dias futuros da Pátria. Ouvimos, sem expressar nossas dores, o clamor das mães sem filhos e das viúvas proibidas de chorar. Somamos esforços porque sabíamos do que nos era tirado, e víamos as famílias subtraídas de seus mais queridos. Guardamos palavras e falas várias. Marcaram-nos por sermos solidários a voz dos torturados, o choro das mães que pediam por seus filhos e pe(r)diam seus filhos. A nós eram negados os degraus da ascendência profissional, bem como o pleito natural às melhorias no trabalho: "Cale-se, ó inútil! Ou te qualifico comunista!". Foi-se o tempo das lutas e veio uma anistia ininteligível, a que poupou os da tortura e permitiu impunidade aos que cometeram abuso de autoridade e mataram em nome do arbítrio. E os que tínhamos por heróis na resistência mostraram-se frágeis de postura porque não disseram mais da luta, mas trataram de usufruir benesses inexplicáveis. Houve os que trocaram as cores das camisas e as formas dos emblemas. Aliaram-se aos algozes, beijaram mãos que lhes feriram a pele e penetraram entranhas porque pelo poder tudo se justifica. A coragem de sorver fartas doses de cachaça em fins de tardes foi tomado como gesto de afronta aos títeres e rasgar sutiãs equivaleu a portar metralhadoras nos assaltos a bancos como ação de guerrilha urbana pela retomada das liberdades. Ah! Triste memória nacional! Felizmente que se faz a História! Dizem que esta, a História, é feita pelos vitoriosos. Contesto: a História, a verdadeira História, esta é escrita não pelos que venceram. Quem a faz, "in fine", são os que sabem escrever. |