Luiz de Aquino Alves Neto

A Língua Ao Sol

Não precisava programar nada, então deixei o dia nascer, simplesmente. Fiz bem, bastava-me o sol. Menos: bastava-me sua luz. E o dia se fez de azul com nuvens, e a luz criava sombras, silhuetas de árvores e prédios, de bichos e gente.. Um rádio toca ao longe, não gosto da música. Ligo a tevê, notícias de crimes e falsetas políticas, nada de arte nem de boas-novas.

Banho, escova de dentes, lâmina de barbear, o café, frutas e leite, conversa amena. Documentos, chave, carro, rua e sinais. Horários e conversas, informações indispensáveis, acertos e esperanças novas. O carro outra vez, a rua e os sinais, uma feira esquecida obriga-me a retornar, voltear seis quarteirões e, ao fim, desistir daquele intento, não há vagas próximas, nem nas ruas, nem nas garagens. Retorno à tarde.

Farmácia. Preços especiais com cartão-fidelidade. Aumento na tabela, mas só para medicamentos de uso contínuo. Só? Sim, apenas. Sem comentários. Estamos mesmo em fase de declarar rendimentos e gastos ante a Receita Federal... Nossos ganhos são controlados, o que gastamos fica limitado a um teto máximo, muito aquém do mínimo que efetivamente gastamos. Eis um caso de incoerência: aqui, o mínimo bate muitas vezes no que o Governo entende por máximo. Aliás, aqui chamam nossos salários e pensões de “renda”, e as taxas que parecem fixas recebem tratamento especial, de modo que, feito mágica, sugam-nos mais a cada ano. Pena que o presidente, tão popular, virou elite também.

Sombras. Nuvens claras. Nuvens de longe, muito longe, em tons plúmbeos, ameaça de chuva para o final da tarde. Ou, no jargão dos técnicos, “no fim do período. Técnicos e profissionais liberais não falam gírias: têm jargões. Médicos conversam num dialeto que tem por esteira os “radicais gregos”; os juristas valem-se dos “radicais latinos” e são tão impolutos, ou embolados, que usam uma língua que o vulgo chama de juridiquês. É que a Língua Pátria, “última flor do Lácio, inculta e bela” (obrigado, Bilac!), também é luz; como tal, ilumina e faz sombras.

Todos precisamos de sol. E da Língua. Alguns, como eu, fogem da luz direta do sol, pois o tempo criou marcas, pintas indeléveis. O tempo também fez-me a pele mais sensível, a luz direta faz dor na pele. E tal como busco a sombra quando a luz é forte, existem os que correm da Língua bem falada, correta e bela, não tão inculta como a conceituou o poeta Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. Incultos são os mais de nove entre dez falantes da Língua de Pessoa e Drummond, de Bandeira e Camões, de Quintana e Maria Helena Chein.

Certa vez, assustei-me comigo mesmo ao discutir longamente com quatro jovens, filhos e sobrinhos, acerca de coisas de escolas e provas. No calor dos argumentos, dei-me conta de que passava dos quarenta anos e não era mais um jovem estudante. Ledo engano, Dona Leda(ê) Selma... continuo menino, continuo estudante, curioso e ignorante como na adolescência. E já vivi quatro adolescências, ao menos.

Olho em volta, confiro meus instrumentos de trabalho e constato que não preciso sair do ambiente da Língua. Afinal, já escrevi “aquêle”, que mudou para “aquele” e, agora, não permitem que eu escreva “idéia” ou “perdôo”. Ou seja, todos nós, com cinquenta anos, somos museus vivos e circulantes da própria Língua.

O dia continua, o pensamento voa... Luz e Língua! Ninguém muda o sol. Muda a Língua...

E o trema? O belo sinal gráfico, doravante, só será visto no ângulo anterior dos quadris femininos, aquelas covinhas que enfeitam bundinhas de modelos e outras seminuas, insinuando-nos sonhos e nostalgia. Na grafia, somente em nomes estrangeiros: Müller, Bündchen... Aliás, a famosa modelo tem trema nos quadris (isso é lindo!).
 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com

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