Luiz de Aquino Alves Neto

A Língua em que se faz samba (*)

Continuo no tema da Língua Portuguesa. A Língua Portuguesa no Brasil, claro. Ou alguma comparação entre o que falamos e o que se fala em Portugal. E as Línguas Estrangeiras influindo no quotidiano. Tolerem-me, leitores, que terei assunto pelos próximos trinta anos; após esse tempo, não escreverei em jornal – vale como aviso prévio, Batista: quando fizer 85 anos, aposento-me.

Se vamos brincar ou trabalhar, há sempre um líder (leader, do Inglês); se temos fome, tomamos um lanche (lunch, Inglês); antes de namorar, temos o flerte (novamente do Inglês, flirt); se pegamos um táxi, tem lá um chofer (do Francês chauffeur); se dominamos uma tecnologia, temos know-how; se levamos jeito para alguma coisa que exige mais criatividade ou malemolência, temos savoir-faire.

Mas, já se nota, aportuguesamos as palavras estrangeiras ou elas se perdem. Sabe-se que o idioma de Shakespeare, atualmente, tem cerca de três quartos de seus vocábulos originários do Latim – por isso, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, estuda-se o Latim; aqui, não precisamos (!?), mas os portugueses não abrem mão da língua dos antigos romanos. As línguas ocidentais flexionam seus verbos em seis pessoas – isso vem do Latim. Mas uma malfadada Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada em dezembro de 1961 e posta em prática imediatamente, a partir de março de 1962, mudou tudo. Sem transição. E ficamos alheios a uma das mais importantes ferramentas para o pleno domínio do idioma – daí o português de quem falei ontem afirmar que nós escrevemos muito mal.

Já disse nestas crônicas que recuso-me a comprar de quem promove “sale” em vez de liqüidação, que não aceito “delivery” em lugar da entrega a domicílio e não como “fast food” em vez de – em Goiás não dizemos assim, mas no Rio era o que líamos nas lanchonetes (agora, palavra inglesa com metamorfose francesa...): “Refeições à minuta” (herança do Francês “à la minute”).

Publicitários, mais que jornalistas, fazem concessões permissivas, como que um estupro à Língua – escrevo em maiúsculas, para não dar duplo sentido à frase. “Muda Brasil” em vez de Muda, Brasil!” tomou conta do país nos anos de 1980, junto com o “Vota Brasil” (seria “Vota, Brasil!”). Órgãos públicos como secretarias de Educação e de Cultura e instituições responsáveis (será?) como academias de letras engolem o que a mídia – publicidade e imprensa – impõem. Emissoras de rádio e televisão cometem coisas agressivas à estrutura da língua – já viram como, nas novelas e nos telejornais, a expressão “há anos atrás” se tornou “correta”? Seria correto, mas redundante, dizer que “há ânus atrás”.

O “economês” chega a irritar. Inclua-se aí publicidade, comércio de varejo, área de investimentos, bancos, indústrias, bolsas de valores etc. Mas o Ivair Lima, competente repórter, psicólogo e poeta sensível, não teme esse tipo de coisa e me tranqüiliza: “Lula (por que ele me chama assim?), esse dialeto não vinga, só existe no meio empresarial. Enquanto houver escola de samba, o Português do Brasil estará salvo. Em que outra língua seria possível se compor um samba?”.

(*)  Esta crônica foi publicada no DM em 19 de junho de 2001. Relendo-a, diverti-me a ponto de querer republicá-la.

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com

 

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