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A Língua Em Risco
“Inicializar; vivenciar; experimentalizar”. Está na moda inventar
palavras. Tão modal quanto “gerundiar” para construir frases em
Português tal como em Inglês, ou seja, instituir no Brasil um “presente
contínuo”, tempo de verbo fartamente usado no idioma do Príncipe
Charles.
“Variabilidade”. Poxa! Essa, ouvi-a de uma cientista do tempo, quero
dizer, uma meteorologista (na tevê). Claro, isso não me surpreende porque,
ao longo de seis décadas, sempre ouvi os mal falantes dizerem que sua
profissão nada tinha a ver com a Língua. Ledo engano! Todos nós temos de
proferir e compreender bem a Língua, ou não nos comunicamos bem e, não nos
comunicando bem, comprometemos nosso próprio trabalho, seja o da coleta de
lixo ou o das orações de fé.
A propósito, como a gente ouve religiosos falando mal, hem? Também, não é
para menos: recentemente, recebi, pela Internet, a oferta de um curso,
nivelado a mestrado, que se conclui em apenas noventa dias. Que curso? O
de pastor. Claro, isso não acontece em todas as “denominações” (apelido
novo para seitas protestantes; é que as pessoas acham que “seita” é uma
palavra pejorativa). Mas será mesmo possível formar-se um sacerdote em
apenas noventa dias? Sei não... Vá lá, depende da qualidade do
profissional que se pretende.
Já vi, em textos, até mesmo professores da Língua confundirem as palavras
“há” e “a” (claro, as vogais “a” e “o” são palavras, em alguns casos). Já
vi engenheiros corrigindo o linguajar de bacharéis de Direito (esta
semana, um advogado, obviamente com carteira da OAB, escreveu-me; havia
sérias confusões de regência e concordância e uma mistura triste de “mau”e
“mal”). Profissionais das áreas de biologia e exatas costumam dizer que
“Língua Portuguesa não é do meu ofício”. Mas é, sim. E como o é!
Viajemos no tempo. Em dezembro de 1961, publicou-se a primeira Lei de
Diretrizes e Bases da Educação no Brasil. Os professores de Grego,
Espanhol, Latim e Francês tiveram de migrar para o ensino de Português; os
de Canto Orfeônico e Trabalhos Manuais perderam seus empregos (só alguns
anos mais tarde apareceram as disciplinas ligando arte a educação).
Parece-me que os professores das esferas das ciências exatas e biológicas
ligaram suas antenas e conseguiram realizar uma importante reserva de
mercado. É que, dez anos depois, outra reforma deu força estranha aos
cursinhos pré-vestibulares, instituindo o tal de vestibular único, que
exige dos candidatos às universidades conhecimentos cada vez mais
profundos de física e de química.
Os professores de Português, não. Acharam que, por ser o idioma
indispensável à comunicação no Brasil, teriam sempre o seu lugar, mas, ao
fraquejarem nesse comodismo, permitiram a queda brusca na qualidade da
Língua falada e escrita pelos profissionais nacionais. Chegamos ao ponto
de um profissional de nível superior não compreender o que lê. Então ele
pede que alguém leia e lhe explique verbalmente o escrito. Já vi médico
pediatra escrever “frauda”e jornalista publicando texto assim: “A loja
promete trocar todos produtos com defeitos” (no caso, “todos” vem a ser a
combinação das palavras “todos”e “os”, assim: “tod’os”; isso parece ter
sido a lógica de raciocínio do autor do texto, se é que isso tem alguma
lógica).
Enfim, alguma coisa precisa ser feita, e já! Ou continuaremos a ouvir os
ícones do telejornalismo nacional a repetir “sofria da doença havia seis
anos” ou a tentativa de nos convencer de que “risco de vida” está errado,
que o certo é “risco de morte”. Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com. E-mail: E-mai: poetaluizdeaquino@gmail.com.
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