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A Língua Por Ofício Manhã de todos os dias, segunda a sexta; pareço o marido da piada, que não abre mão do controle remoto da tevê. Jornal de manchetes numa, tanto no local quanto no nacional; mundo-cão goianiense, com ligeiras incursões ao interior, se a notícia contém tráfico, assassinato, estupro, roubo etc.; ênfase total para o futebol. Um bom momento é a interferência de Alexandre Garcia a analisar fatos. Esta semana, ele foi excelente ao comentar a expansão do poder de consumo das classes “menos favorecidas”, mas destacou a questão da educação. E o fez muito bem, lembrando a Constituição de 1988 e o voto do analfabeto. Um vacilo oficial: deu-se ao analfabeto o direito de voto, quando o certo seria dar ao cidadão o direito à leitura e à escrita, permitindo-lhe o crescimento pessoal em suas várias nuanças. Estendendo o comentário, Alexandre Garcia lembrou que, em 2006, a nação brasileira concedeu apenas 2% de seus votos ao candidato à Presidência da República que tinha a educação por bandeira (o senador brasiliense Cristóvão Buarque). E fez referência aos analfabetos funcionais – que uma jornalista conceituou como quem apenas desenha o próprio nome. Alexandre foi mais exato, sem ditar explicitamente os que sabem ler as palavras escritas mas não entendem o que lêem; falou em “gente que não sabe a diferença entre isso, isto e aquilo”. Acabei de acordar: tenho batido nessa tecla há anos! Ao definir assim o analfabeto funcional, Garcia atingiu pelo menos nove entre dez de seus colegas de tevê, sejam eles jornalistas (repórteres, âncoras, produtores, apresentadores etc.), atores e tantos mais quantos sejam os que aparecem na telinha. O mesmo acontece com os de rádio, e ainda (lamentavelmente) com os da escrita. Dia desses da semana passada, chamada de primeira página de um jornal diário continha cinco erros graves envolvendo ortografia, regência e concordância, em menos de quatro linhas em uma só coluna – o que deixa qualquer estilo sem qualidade alguma. Oradores políticos e acadêmicos, em qualquer ambiente, resolveram adotar falas “politicamente corretas”, com um novo e antipático vocativo – “todas e todos”. Lembra o Sarney, quando presidente, dirigindo-se a “brasileiras e brasileiros”. Prefiro as falas de Getúlio Vargas, que se dirigia aos “trabalhadores do Brasil”. Sem se preocupar com desempregados e vagabundos, o vocativo do velho caudilho gaúcho (parece que caudilho gaúcho é redundância, não?) era um apelo para que todos trabalhassem. Esse “todas e todos”, porém, não é doença brasileira, não. Recebi uma gravação em voz feminina, enviada pelo poeta Rubén Cesar Reyna (argentino) em que a locutora tenta ensinar que “todas e todos” exclui pelo menos os “gays” eventualmente presentes na plateia, bem como lésbicas, transexuais etc. e tal. E daí a moça descamba para outra anomalia que eu pensava ser nacional – inventar uma forma feminina para palavras terminadas em “ente”, “ante” e outras parecidas. Lá, como aqui, andam dizendo “presidenta”, violando as regras do bom castelhano, tal como se estupra aqui o bom português. A moça exemplifica dizendo que ninguém fica “dementa” nem se é “estudanta”, muito menos “eleganta”. Aproveito a rima e chamo de anta (com licença do maior mamífero da América do Sul) quem assim tenta mudar a língua pátria. Na tevê e no rádio, no Brasil, nossos colegas confundem isso e isto, falam circuito como se escrevêssemos cirqüito (com trema) e fazem uma salada de salmão com feijão preto cozido e arroz-doce quando se trata de regência e concordância; isso é exclusividade dos jornalistas esportivos, principalmente os que têm salários maiores. E aí, a raia miúda, formada dos mal-pagos e maus estudantes, os que se formaram com vistas apenas a analisar jogos de futebol, seguem os “mestres” como se estes tivessem a envergadura de um Celso Cunha ou um Evanildo Bechara. Por estas e outras críticas, já fui alijado de alguns canais de informação daqui e de outros cantos (as pessoas com preguiça de estudar têm muito tempo e disposição para a vingança). Mas não gosto de cantor fanhoso nem instrumento desafinado, logo dispenso, também, os que vivem da voz e das escritas e não respeitam o seu principal instrumento de trabalho (e de sobrevivência, pois). Daí o meu aplauso a Alexandre Garcia, que sabe onde está a ferida e não receia remover a casca necrosada. Espero que as direções das emissoras tenham mais critério ao escolher profissionais, preferindo os que tragam melhores qualidades do que apenas “animar uma galera”. E que, uma vez empregados, esses profissionais tirem tempo para se aprimorarem no conhecimento da língua, bem como na dicção, já que vivem disso. Finalizo convidando os amigos, especialmente os leitores, para a solenidade do dia 16 próximo, na Câmara Municipal de Goiânia, quando receberei da vereadora Célia Valadão um título que me é muito valioso: o de cidadão goianiense. Afinal, vivo aqui há 47 anos... Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com |