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A Poesia E A Dor Estava no Rio de Janeiro há poucos meses, tinha dez ou onze anos. De Caldas Novas, trazia a lembrança de apenas uma grande cheia, quando o Córrego das Caldas avolumou-se e segurou em seu leito um automóvel que o atravessava... A ponte, de madeira, caíra uns dias antes e uma torrente inusitada, proveniente da retenção das águas por galhadas, fez parar o veículo. A família ocupante foi salva por uns ciganos acampados ali perto. Ruas cheias, isso eu nunca vira. Afinal, a minha pequenina cidade estava, naquela época inteirinha na crista divisora das pequenas vertentes. E a rua cheia, para a minha descoberta, lá em Marechal Hermes, subúrbio da Central do Brasil, era a Jorge Schimidt, que cobre um pequeno caudal . Nunca entendi porque as prefeituras fazem ruas nas beiras dos córregos, canalizam-nos e depois os cobrem para que a Natureza, exigente, reclame seu espaço e dê vazão às tragédias. Ando chorando demais, este ano. Minas e São Paulo, o Sul e Angra dos Reis, Nordeste e Baixada Fluminense, tanto Brasil mais sob a ação punitiva das chuvas e das cheias. Agora, a Belacap, como a chamávamos ao tempo de JK, é o alvo das ressacas do mar e do açoite das chuvas, ponto de convergência da quente umidade provinda da Amazônia e das massas frias que veio do Pólo Sul. Chuvas descomunais, ondas grandes e ameaçadoras, o chão encharcado, os morros de granito, a lama deslizante, o susto, a lágrima, a dor. Agora, as chuvas molharam cenários da minha lembrança, chicoteando os ares e o chão, alagando tudo, obstruindo túneis e estradas, isolando bairros e praias, atravessando a grande ponte sobre a Baía de Guanabara. As águas tinham um acerto de contas com Niterói e redondezas. Dezenas de casas desmontadas e soterradas, vidas desaparecidas, sobreviventes e heróis apalermados, em choque. Foi aí que veio a poesia, ou seja, a linguagem da alma humana. E veio de lá, do Rio de Janeiro, da lavra de poetisa Lilian Maial envia-me o seu pranto versejado: Eu Tenho um Rio (é o título) “eu tenho um rio que brota de dentro / e traz à tona o que foi sedimentar // tenho margens estreitas, correnteza furiosa / sem escolhas, apenas desaguar // invado e erodo, aliso cascalhos / até escorregar no limo do verbo // eu tenho um rio que leva as paredes / que se erguem em meio ao lixão da poesia / e soterra a palavra viva // eu tenho um rio de inundadas faces / e chovo poemas de sangue // eu tenho um Rio de Janeiro no peito estiado / e expio a falta da lembrança do teu rosto”. Eu acabara de ver o noticiário, a lama preta no Morro do Bumba, em Niterói. Meus olhos já se habituaram às lágrimas ante a dor de tantos. Se já sentia aquele mal-estar que é a impotência ante o trágico, emocionou-me o poema de Lilian, e cuidei de lhe responder assim: Lama e Lágrima “Brotava de mim um poema choroso , / de chuva de letras e lágrimas vírgulas. // Um veio de triste manchava meus olhos / à lama escura de um lixão esquecido. // Chorei plástico e lata, indefinido orgânico, / e fiz brotar o chorume na raiz das casas. // Eu não chorei um rio, mas o Rio de tantos / corações e janeiros, desde Sá e Araribóia. // Um rio de cá, o outro de lá e Itaipu. / Não era um céu, mas meus olhos; o verso, / um claro de lama e pedras sem verde. // E um rastro de sal na lama e na lágrima. / Abênção, Bumba (meu morro)!”. Ficam assim, nossos poemas, no modo que sugeriu Noel Rosa, em “feitio de oração”. Leiam-nos também, caso queiram, nesse endereço: http://recantodasletras.uol.com.br/duetos/2185711. E queiram, ainda, emprestar seus gestos gentis de solidariedade, enviando o que for possível a cada um em auxílio às vítimas desse infortúnio. Deus lhes pague! Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com |