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Adeus Ipês Da Avenida 85! A ciência confirma: a alegria é contagiosa, mas a tristeza, não. E as coisas que nos dão alegria são tantas quanto as que nos causam tristeza, não é mesmo? Gosto muito de festas. Quem não gosta? Festa é alegria, é regozijo, é oportunidade de espalhar, por contágio, a alegria, e a alegria social é indício de esperança. Festejamos uma boa notícia, ainda que ela só interesse a um grupo pequenino, como a família ou a minúscula lista de amigos. E festejamos as realizações comunitárias. Não fosse a chuva, a festa de inauguração da complexa obra no cruzamento da Avenida T-63 com a Avenida 85, no encontro dos setores Bueno e Bela Vista, teria sido muito mais bonita. Da minha sacada, a pequena distância, limitei-me a ver as nesgas de luz de dois holofotes e os clarões dos fogos, já que o bairro ganhou, nestes quatorze anos em que nos tornamos íntimos, uma infinidade de altos edifícios, fazendo monótona a paisagem das nossas janelas. Na manhã seguinte, a de sábado, perambulei de carro pelas vias próximas. As passagens pelo viaduto e pela trincheira continuavam impedidas, era preciso ainda finalizar detalhes, o que se explicava até mesmo pelas chuvas fortes. Afinal, milhares de toneladas de nuvens pairam sobre nossas cabeças e a natureza as transforme em precipitações às vezes violentas. Havia, e há, um grande alívio nos corações dos moradores e usuários das vias adjacentes. Foram muitos meses de trânsito desviado e congestionamento no tráfego de veículos e pessoas, o comércio ressentiu-se gravemente e todos ansiávamos pela volta à normalidade. A administração municipal prometeu, repetidamente, com uma frase piegas, espalhada em cartazes mal colocados e de gosto discutível: "Os transtornos passam, os benefícios ficam". Mas o meu passeio após a inauguração trouxe-me, mais que a alegria pela constatação dos benefícios prometidos, a perplexidade ante o desaparecimento de mais de trinta árvores. Os ipês rosas (eram todas elas da mesma espécie) desapareceram porque as autoridades ambientais decidiram trocá-las por palmeiras imperiais. A imprensa reclamou. E as autoridades chegaram com a resposta, que nos soa como ensaiada: os ipês estavam doentes. Um assessor do Paço Municipal assegura que o presidente da AMMA, a Agência Municipal do Meio Ambiente, mandou fotografar as marcas das doenças. Mas, perguntam os jornalistas, estavam todas doentes? Não, apenas nove delas. Ou seja, perto de trinta por cento. E acrescenta que, "além do mais", era preciso dar continuidade, pois, desde a Praça do Ratinho, a Avenida 85 é ornamentada com as palmeiras, mas após o cruzamento com as avenidas Ricardo Paranhos e Mutirão apareciam os ipês. Continuo não entendo (e não aceitando). As palmeiras imperiais podiam ter sido plantadas entre os ipês, sem que fosse necessário eliminá-los da paisagem. As minúsculas mudas plantadas levarão anos até começarem a marcar a paisagem. Mas as flores de todos os anos nunca mais alegrarão nossas vistas. Daqui a trinta anos, as palmeiras terão suas presenças definitivamente firmadas no cenário, mas isso não exigiria, de modo algum, a remoção dos ipês. Sabe-se que as prefeituras brasileiras, no geral, resistem muito aos pedidos de remoção de árvores. O zelo da autoridade da AMMA para com as árvores é estranho e condicionado. As mongubas que, a cada período chuvoso, caem sobre casas e automóveis e deixam pessoas sob risco de vida continuam existindo sem que a autoridade ambiental se manifeste. A Prefeitura exige, em todo processo de instalação industrial, por exemplo, um relatório de impacto, o que custa um bom dinheiro aos empreendedores. E derruba mais de trinta árvores sob a alegação de que nove delas estavam doentes. Estavam mesmo? O "modus operandi" permite-nos a dúvida. E as árvores que o mesmo poder público manda (ou permite) abater, cujos tocos de caule e as inevitáveis raízes continuam como obstáculos aos pedestres? E as calçadas das cercanias da nova obra, isto é, no Bela Vista e no Bueno, que registram inclinações exageradas, em flagrante desrespeito aos códigos do município? O mais grave é que o próprio poder público fez isso, quando duplicou a Avenida T-63 usando terra removida das vias públicas próximas. Nesses bairros, é praticamente impossível ao pedestre transitar pelas calçadas. Quero dizer ainda que, ao longo dos meses da obra, Dermu/Compav e SMT cometeram inúmeras ações inconvenientes, em total desrespeito ao cidadão, e tudo isso a imprensa noticiou, mas as autoridades continuaram infensas aos reclames. Para finalizar, a Agência Municipal do Meio Ambiente remove, sem qualquer satisfação à sociedade, os ipês que alegravam nosso cálido inverno. Felizmente (não há mal que não nos mostre algum bem), resta-me algo a festejar: o titular da AMMA não é o chefe de órgãos que cuidam da defesa sanitária. Já imaginaram? Se por nove árvores, que ele disse estarem doentes, condenou todo o conjunto, certamente mandaria exterminar a população porque uma parcela expressiva das pessoas contraiu dengue. Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com |