Luiz de Aquino Alves Neto

 Armazém De Valores

Um saco de cimento de vinte reais tem melhor tratamento, em qualquer lugar, do que um ser humano, ainda que numa UTI de hospital – diz-me Ulisses Aesse.

Romário, que fez fama com os pés e suas tiradas interessantes nas entrevistas pelos gramados de todo o mundo, vai para a cadeia porque atrasou a pensão dos filhos adolescentes.

Didi, pai de Welliton Carlos e Ulisses Aesse, morreu. Morrer é natural, triste é morrer antes dos setenta anos, com todos os cuidados possíveis nestes tempos.

Antigamente, e falo de um “antigamente” bastante recente, antes que os satélites artificiais e a Internet “aldeiassem” o mundo (ou globalizassem a aldeia), como preconizava Marshall McLuhan... Antigamente, a gente morria sem saber do resto do mundo. Hoje, sabemos de quase tudo, até mesmo do que pouco interessa. Lamentável é que umas poucas pessoas escolhem o que devemos saber e como a informação deve chegar até nós. Muito parecido com o critério de escolha dos líderes pelos partidos políticos: ano que vem, teremos de escolher entre Dilma e Serra. Triste isso, também.

Uma carreta transporta vinte e dois bois, não mais. Os animais não podem estressar. Mas um ônibus transporta centenas de seres humanos em condições condenáveis. Um saco de cimento, Ulisses e Welliton, é transportado com os cuidados para não rasgar e armazenado fora de umidade, a gente sabe. O ser humano que se dane (sei disso, já estive internado numa UTI).

Por uns poucos meses de não pagamento aos dois adolescentes, Romário acumulou perto de noventa mil reais de dívidas. Muitos milhões de famílias brasileiras resolveriam todos os seus problemas da existência inteira com noventa mil reais. Mas a viúva de marido vivo Mônica Santoro, representando os filhos, apelou pela prisão para obter pagamento.

As notícias dizem que ele está descapitalizado. Mas possui bens. Esses bens irão, certamente, formar o patrimônio de Moniquinha e Romarinho, bem como de qualquer outro filho do desportista. Ele já deu demonstrações públicas de ser bom pai, ninguém acredita que, ao atrasar o pagamento, tenha agido com o propósito de prejudicar os filhos.

Mas a viúva Santoro precisa de holofotes, certamente. Bem como advogados e autoridades constituídas. Romário não abaixou a cabeça, nem a cobriu com a camiseta, como fazem bandidos, policiais criminosos ou políticos corruptos. A carência, no caso, não será dos filhos a quem Romário deve parcelas atrasadas (estes, com a pensão que têm, certamente dispõem de boas poupanças ou mesmo de bens patrimoniais). A viúva, sim, deve estar carente de luzes sobre si.

E meus amigos Ulisses e Welliton, jornalistas e artistas de música e poesia, amargam a ausência do pai, prematuramente (já que, nestes tempos, temos medicina que assegura vida longeva). Tudo porque o Sr. Didi não era um saco de cimento. Ou um garrote no caminhão.

Fico triste. Os valores da vida e das relações precisam ser revistos e redisciplinados. Talvez não seja o caso de novas leis, mas de caráter, de ética e respeito.

Será que Moniquinha e Romarinho têm pelo pai um sentimento de rancor tão grave, a ponto de apoiarem sua prisão?

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve neste espaço aos domingos. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com.

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