Fim de janeiro, e a gente mal se refez da ressaca das festas natalinas e de Ano-Novo. Esta passagem de ano teve cores diferenciadas, com as preocupações centradas na crise mundial que, dizem, supera a de 1929. Será? Sim, é possível... Afinal, vivemos a tal da economia globalizada, isto é, o capital deixa de ter pátria e corre o mundo, aplica-se onde obtém melhor rendimento, instala indústrias onde o custo do trabalhador beira a linha do trabalho escravo e vende produtos onde houver alguém. Se o propósito é vender sorvete, há que se convencer esquimós. E, também, há que se mostrar aos beduínos que eles precisam de aquecedores.
Há produtos que se vendem em qualquer lugar: calçados, roupas, bebidas, armas de fogo, drogas lícitas, drogas ilícitas, computadores, automóveis e, principalmente, ideologias. Impor a ideologia do Tio-Sam, ainda que falido, não é feio nem condenável. Condenável é vender ideologias “exóticas”, como o sonho de bons salários ou o respeito à dignidade de cada um. Indigno é permitir que alguém seja ateu. Ou muçulmano, porque os do Islã lembram homens-bomba e mulheres-suicidas (pessoas dispostas a morrer para se tornarem mártires, ou de oferecer os próprios filhos em holocausto por uma causa radical).
É preciso ser grande, altruísta, olhar para os horizontes além da divisa do olhar, porque o mundo é muito maior (dizem eles). Olhem longe, sim. Porque olhar perto é profano e perigoso. Se olhar perto, você pode descobrir que quem lhe oferece uma ideologia saudável e libertária violou a liberdade e a dignidade de alguém, apoderou-se dos bens de outrem, locupletou-se de modo inconfessável e gerencia com eficiência uma gorda conta bancária num desses famosos paraísos fiscais...
A economia é globalizada, mas tem capital. Vale a ambigüidade – e a ubiqüidade também (gosto de trema, vou usá-lo até que me obriguem ao contrario). A capital do capital universal, quero dizer, globalizado, ganhou novo gestor, simpático e negro. Negro? Aqui, seria crioulo, mulato, mestiço. Aqui, provavelmente não se faria referência à cor da pele. Ainda restam muitas ilhas de racismo, mas caminhamos a passos largos para a integração.
Mas eu dizia do reinício das aulas, e boa parte das escolas já cumpre a rotina que se estenderá até os primeiros dias de dezembro, com um recesso em julho. Mochilas cheias, colunas dorsais condenadas, ensino de qualidade sofrível e uma geração de estudantes que transporta toneladas e toneladas de livros para, daqui a poucos anos, nunca mais olhar para eles.
Certo: esses jovens passarão a odiar os livros, pois estes foram, para eles, como as pedras de antigamente para os prisioneiros que as quebravam enquanto se economizava dinamite. Professores da área intelectual devem ser maus profissionais, pois os de esportes conseguem fazer os meninos gostarem de bola. Ou não? Certo, Marcos Caiado, estou sofismando, sim. Mas quero conclamar os professores a ensinarem esses jovens a gostar de ler, e não apenas exigir que eles carreguem livros. Conhece alguém que se tornou concertista por carregar o piano?
Ando, sim, preocupado com o rumo que as coisas tomam. Há uma constante inversão de valores, ninguém quer edificar o homem de bem do futuro. A nova novela de Glória Peres mostra um casal que deseduca o filho, acumplicia-se com ele para acobertar o vandalismo e os crimes cometidos pelo adolescente. Qualquer semelhança com o cabo da PM, pai do sujeito que matou Hígor à saída da boate, é mera coincidência.
Vamos lá, companheiros nascidos nos anos 30, 40 e 50 do século passado, vamos cumprir nossa parte. Como voluntários, conversemos com os jovens, seja em casa, nas ruas, nos bares e nas salas de aula. Talvez as nossas vidas tenham história bastante para mostrar-lhes que os tais de valores morais ainda valem a pena.
Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana
de Letras.
Luiz de
Aquino -
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