Luiz de Aquino Alves Neto

Autoridades, Ídolos E Mídia

Fé pública. Imagem pública. Autoridade. Ídolos sem essência.

Que tempos, hem? Enquanto a nação de chuteiras vislumbra em telas de plasma, LCD ou LED as cores vivas da alegria africana, exaltando a ênfase em amarelo-ouro que veste os tórax dos mestiços brasileiros em busca do sexto título mundial, uns raros mequetrefes com poses de poder atuam contra a vida.

Atenção, Brasil! O DENATRAN (ou o CONTRAN) resolveu que os agentes de trânsito não precisam parar condutores para notificá-los sobre infrações cometidas, basta anotar e mandar o boleto pelo correio – afinal, os agentes de trânsito têm fé pública. Desde então, a expressão “fé pública” virou varinha de condão. Por trás dessa “fé pública” os agentes tomaram gosto em emitir multas à vontade, à revelia do multado. As mais freqüentes referem-se ao uso de telefone celular e ao não-uso do cinto de segurança.

Conversando com um jovem agente de trânsito, desses que usam, em Goiânia, o uniforme amarelo-ouro sem ser craque da Seleção Brasileira, ouvi dele justamente isso: “fé pública”. A coisa, então,  torna-se o velho jogo de uma palavra contra outra, com a irreversível desvantagem do cidadão multado; e contra a “fé pública” não há defesa. Como provar o contrário? Uma testemunha dentro do carro sempre será passível de suspeição; a constatação de que, no momento da multa, o celular do condutor multado não era usado não prova nada: “Ele pode ter usado um celular de terceiros”, alegou-me o moço que tem “fé pública”.

Ao mesmo tempo da Copa da Mundo, alguns outros brasileiros, imbuídos de um poder que lhes dá a notoriedade na mídia ou o fato de já ter sido agraciado com o benefício da “fé pública”, resolveram matar mulheres: o goleiro Bruno, capitão da equipe de futebol do Flamengo, para evitar o pagamento de pensão alimentícia à mãe de um  provável filho seu, concebido (segundo ele próprio) durante uma orgia; o advogado e ex-policial militar paulista Mizael Bispo, por se sentir incomodado com a imaginável possibilidade de a ex-namorada vir a curtir outro corpo, bem como fazer declarações e juras de amor para outros ouvidos que não os seus. E partiram, ambos, para a matança.

Mizael, ex-policial, talvez não tenha perdido o calor da farda; ou pratica a auto-exaltação por ser bacharel em Direito. Num ímpeto de semideus, decidiu eliminar a ex-namorada. Armou-se de tantas provinhas para constituir um álibi que despertou suspeitas do delegado que investigava o sumiço da advogada Mércia. Bruno cercou-se de amigos, parentes e namoradas para criar uma estrutura intrincada que, tal como no caso Mércia-Mizael, pecou por excesso. E o desaparecimento de Eliza é, agora, muito bem compreendido por quase toda a população brasileira.

Pois é,  Perdemos a Copa! A nação do futebol voltou atenções para os casos das moças trucidadas com requintes de crueldade. E a atenção aos jogos da Copa e aos assassinos do sul-maravilha fizeram com que a Pátria das chuteiras se esquecesse da tragédia que vitimou milhares em Alagoas e Pernambuco. E pelo silêncio de alguns canais de notícias, por pouco a nação viraria as costas também a um caso horrendo em Santa Catarina – o estupro de uma menina de treze anos por dois adolescentes que, também muito jovens, aprenderam cedo a dar carteiradas, desafiando os desagradáveis com o tradicional bordão “Você sabe com quem está falando?”.

Nas multas misteriosas dos agentes goianienses,  nas mortes de Eliza e Mercia e, ainda, no estupro da menina de Florianópolis fica bem nítido esse desafio à lei e à sociedade: os caras estupram, matam e multam porque têm a autoridade da “fé pública” (ainda que o público duvide de sua legitimidade) ou a capa do poder de família, seja ele um distintivo de delegado de polícia do pai de um ou o volumoso patrimônio que dá ao pai do outro um poder capaz de interferir na política. E, neste caso, se bobearmos, até a Justiça pode se tornar esquecida

Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço.
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.
Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com.

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