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Bola Redonda, Letras Tortas Há quarenta anos, João Saldanha convocou o que muitos ainda têm na conta de o mais bem selecionado de todos os escretes (ninguém se lembra?) dentre os que envergaram a famosa camisa amarela. A vocação para o arbítrio consolidara-se um ano e meio antes, quando se editou o Ato Institucional nº 5, e deu o ar da mais pura “graça” quando, em dezembro de 1969, a junta trina militar convocou o general Médici para o terceiro plantão da primeira ditadura por revezamento da História (não me lembro de outra). O regime endureceu: se antes era de violência e perseguição, desde o tal de AI-5 a coisa ficou turva, escura feito os momentos seguintes ao crepúsculo em noite de Lua Nova. Prisões, sequestros, torturas, humilhações, assassinatos nos porões dos quartéis e delegacias, perseguições nos ambientes de trabalho e um procedimento maluco, que era a “cassação dos direitos civis”, tornou-se ferramenta de morte-em-vida para centenas de brasileiros. Bastava que alguém (geralmente, algum medíocre louco por aparecer) acusasse um desafeto de “esquerdista” ou “comunista”. Assim, o delator era premiado com o cargo do denunciado, em grande parte das vezes. Outros deduravam por mero prazer e a oferta de comendas multiplicou-se. João Saldanha teve a petulância de responder a uma insinuação do “césar” de Bagé (atentem: dos cinco generais que se revezaram no posto de “presidente” do tal regime militar, três eram gaúchos de nascimento; os outros dois, cearense e carioca por nascimento, foram forjados em escolas e quartéis do Rio Grande do Sul. Coincidência?). O “presidente” Médici mandou dizer que gostaria de ver Dadá Maravilha no Escrete de Ouro, e Saldanha respondeu que jamais dera palpites na formação do ministério... Saldanha também era gaúcho. Foi o bastante! João perdeu o emprego e Zagalo foi chamado às pressas para ser o técnico do tricampeonato. Agora, outro gaúcho está no comando da Seleção Canarinho. Saldanha era jornalista esportivo; Dunga, o zangado, foi jogador do nosso Esquadrão e vem se destacando como um bom treinador (como Saldanha). Lula não tentou se impor no trabalho de Dunga. E Dunga já lhe negou a mão em cumprimento, justo na recepção em Palácio, no dia em que a delegação brasileira rumou à África do Sul. Agora, o que se vê é uma queda-de-braços entre Dunga e a Rede Globo. Não gosto de ver tratamento grosseiro dispensado por entrevistados a jornalista. “Esprit de corp”? Talvez. Também não gosto de ver policiais e guardas civis agredindo professores que lutam pelo direito de ganhar duas vezes e meio o salário mínimo. Que país é este? Sim, que país é este? (Notem que grafei “este”, e não “esse”, como teimam em dizer nossos coleguinhas televisivos. Mas é triste vermos o Dunga xingar jornalistas. Só mesmo três dias depois recebi a versão contrária, a que fortalece Dunga: a presença invasiva de equipes jornalísticas, escudada no poder da Organização monopolista na Copa da África, vêm buscando minar o trabalho do treinador Dunga. Os repórteres e técnicos que se tornaram alvos diretos são, em suma, a ponte entre ele e os que impõem o jeito de sacar notícias e imagens da Seleção Brasileira. Para nós, humildes e felizes torcedores, cheios da esperança do Hexa, fica o “macro”, ou seja, as imagens, falas, comentários, entrevistas, os jogos e a chatura de meia dúzia de falantes a atropelar a língua de Saramago: já criaram uma regência maluca para se referirem a derrotas: um time perde “do” outro; há cerca de uma semana, criaram a segunda: um time venceu “do”, “de” e “da”... Estou de ouvidos atentos, a qualquer momento alguma equipe vai empatar “da” outra. Aonde anda o Professor Nogueira? Os atuais comunicadores esportivos da mídia eletrônica violam a memória de outro Nogueira, o Armando, excelente jornalista, exímio poeta! Ele era do tempo em que, para se falar em rádio e tevê, o profissional precisava, antes, ser alfabetizado... Enfim, dói-me escrever antes do jogo Brasil e Portugal. Espero ver uma das melhores pelejas (hoje estou gastando vocabulário antigo, hem?) desta Copa! E, é claro, espero que o nosso time (enfim, um vocábulo em voga) vença a equipe de Cristiano Ronaldo. E que o México dê muito trabalho a Don Diego Maradona, o lado hilário deste certame. Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras, escreve aos domingos neste espaço. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com/. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com
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