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Chope, Choro E Cheiro De Noite Briguei, e continuarei brigando, para que o prédio do Grande Hotel, dentre outros em Goiânia, venha a integrar um acervo de locais intocáveis da ainda incipiente memória da cidade. São poucos anos, os desta cidade. Mas muitas são as referências. Lamentável que se tenham perdido o Palácio da Pecuária, as ilhotas centrais da Rua 82 e o complexo arquitetônico da Santa Casa de Misericórdia; então, é preciso que cuidemos, com dedicação, de reservas como relógio da Avenida Goiás e seu vizinho Coreto, na praça Cívica. Os saraus de choro na calçada, nas noites de sexta-feira, vêm a ser um momento de encontro de gerações. São centenas de jovens a misturarem-se a outros jovens, os de anteontem, feito eu e alguns com idade de meus pais. Gente que curte boa música, gente com vontade de sair de casa e reviver vivências de um tempo em que o Centro ainda era o referencial da vida social, política, econômica e artística da cidade. E ali, fico sabendo que também o Mercado Municipal do Bairro Popular, na Rua 74, abriga outro evento musical, em outro gênero. Ocorre-me de sugerir ao secretário, o poeta Kleber Adorno, que inicie no Coreto, outra festa no calendário das semanas. Retreta, talvez; e que isso se faça também no Coreto da Praça Joaquim Lúcio. Neste caso, podem se revezar concertos e recitais. No caso da Praça Cívica, seria o caso de fechar-se o trecho desde o cruzamento da Avenida Araguaia até o da Tocantins, com espaço amplo para a platéia de musicófilos (existe isso? Se não, invento-o agora). Volto à porta do Grande Hotel. A noite foi de Randal Vaz, para orgulho coruja de Maria e Valdivino, poeta inquieto e dos melhores. Ao fim do xou, Sandra e Reinaldo convidam-me: “Vamos esticar”. Vamos. Uns poucos chopes sempre me animam a esticar a noite; ainda mais quando sei que há boemia de violões e vozes. Mas esta é uma Goiânia contemporânea, fora do eixo da Tamandaré e da Ricardo Paranhos. O destino é um bar-restaurante, o Grill, na Rua 88. Viagem no tempo, essa noite de sexta-feira, primeiro dia de junho, 2007. Revejo pessoas queridas, anos alguns de intervalo, rugas e cãs. Diferenças em nossos corpos, uns menos gordos, outros mais pesados... Só a saudade é igual, mensurável não só no tempo de não se ver, mas na intensidade dos sentimentos. Vozes conhecidas, sempre lembradas. Canções de épocas distantes, viagem de memória à infância, adolescência revivida. Despeço-me. Saio e constato, no painel do carro, que ainda não chegara à meia-noite. Volto. Sei que os boêmios amigos não se recolhem tão cedo, quero não perder canções que me darão alegria. Ecoam lembranças e nomes. Josafá Nascimento, Geraldo Amaral, Randur, Marquinhos do Violão, Xará, Anete Teixeira... canções de letras poéticas, desde Chico Buarque dos festivais até Noel Rosa, passando pelo perfeccionismo de Orestes Barbosa, magistralmente musicado por Sílvio Caldas em “Chão de Estrelas”... Fim de noite, fígado clamando paz, coração em festa. Hora de buscar o lar e o leito. Na calçada, o cheiro típico só presente nas noites, com realce para as madrugadas bem-vividas. Vou até o muro de onde um galho derrama cachos de miúdas flores. O cheiro é fetiche. Hipnótico, atrai e prende: afrodisíaco. Colho um ramalhete e enfio-o no bolso da camisa. Mantenho fechadas as janelas do carro. Em casa, ponho-o num copo d’água, à janela da cozinha. Passei o sábado com uma breve sensação de constrangimento. As folhas tristes dormitavam: o ramalhete murchara. Mas não o tirei da água. Quem sabe cria raízes e posso plantá-lo, na tentativa de um breve arbusto num grande vaso para perfumar a noite na sacada do apartamento? E, no começo da noite, a surpresa: o pequenino ramo de folhas e flores miúdas revive! O verde revive; as flores exalam fragrância. Deixo lá o ramalhete: durmo feliz! |