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Com A Mão Na Massa Alguns animais, dizem, têm os olhos sob coordenação independente, ou seja, podem focar, ao mesmo tempo, direções diferentes (convenhamos, esse seria um atributo maravilhoso, não é?). No mundo de hoje, este das últimas décadas, suprimos essa vontade com as câmeras de vídeo, comumente usadas em segurança (ou espionagem). O bicho sapiens, sempre que carente de algum dom que percebe noutros animais, cuida de inventar. O homem, pois, cerca-se de instrumentos que lhes suprem quase todas as carências: o homem desloca-se sobre rodas, navega, mergulha, voa, vai ao espaço além da atmosfera, comunica-se à distancia, corrige distorções de visão e audição, corrige o metabolismo e a função de seus órgãos... O momento de escrever é assim, de muitas ideias e sugestões. É do homem isso de inventar coisas, e a mais perfeita das invenções, para mim, é a escrita –artifício mágico de se desenhar sons, de derivar os desenhos em letras, sinais que se juntam para expressar sons e formar palavras. Com isso, vem a comunicação, mágica de juntar palavras a exprimir ideias complexas. A ideia ora vira som, ora escrita; mas sempre é possível transmudar as formas. Assim chegamos à literatura, o traje elegante da escrita. Ideias, palavras sonoras e escritas, frases e períodos, página, livros; leitura, interpretação, interação... O processo é longo e sofisticado, jamais limitado. Com isso fazemos história, e nós, que constituímos a sociedade ocidental, não concebemos um povo sem história. Mas, há poucos dias, achei essa observação de ninguém menos que Jorge Luís Borges, cidadão argentino e poeta da Humanidade: “...se nos inclinarmos sobre a história, acho que talvez possamos supor que chegará o dia em que os homens não terão mais ciência da história como nós. Chegará o dia em que os homens cuidarão muito pouco dos acidentes e circunstâncias da beleza; cuidarão da beleza em si mesma. Talvez nem cuidem sequer dos nomes ou das biografias dos poetas”. (Esse Ofício do Verso, pág. 80 e 81, Companhia das Letras, 2000). Isso, de certa forma, já acontece. E, contraditoriamente (e felizmente), isso não acontece. Quero dizer que existe, sim, um grande desinteresse pela poesia e pelos poetas, bem como pela filosofia e pelos filósofos, mas um também imenso segmento das sociedades (falo dos povos ocidentais, porque dos orientais muito pouco sabemos nós) cultiva as bases da história. Como se viu na noite de quinta-feira passada, 28 de janeiro deste novíssimo 2010, quando, a convite da Construtora EBM, um grupo de pessoas com (dizem eles) papéis importantes no contexto da cidade, foram chamadas para gravar suas palmas em placas de cimento. Iuri Rincón Godinho foi quem me comunicou, e lá fui eu imprimir a mão na massa de construção. Ao meu lado, o poeta Delermando Vieira, o mais recente empossado na Academia Goiana de Letras (dos “imortais” goianos, também Bariani Ortêncio e César Baiocchi foram homenageados). Muitos outros intelectuais e artistas, gente que faz História com seu trabalho, foram lembrados nessa galeria, que, contaram-me, reúne setenta e sete figuras goianienses, em referência aos 77 anos de lançamento da Pedra Fundamental da cidade (24 de outubro de 1933). Colhi ligeiras informações, o possível a se fazer durante uma festa: o projeto é de PX Silveira e tem a organização da Contato, a empresa da Adriana e do Iúri Godinho. E senti-me mais feliz ao saber que também Delermando plantaria sua mão no concreto, ele que enaltece nossa terrinha natal, Caldas Novas, pelo elevado valor de seus escritos em prosa e verso (vem aí um livro de 600 páginas de poesia). Resumo, porque o espaço já se acaba: a festa da EBM corrobora a observação de Borges e insurge-se contra o vaticínio de que as sociedades esquecerão sua história e as de seus poetas (e musicistas, e folcloristas, e artista plásticos, como Malaquias e Papas Stefanos). Agradeço, com humildade, a distinção. E agradeço aos amigos Luiz Ungarelli, Wanda Cherubino, Vanessa, Maria Luiza e Roseli, que me acompanharam (afinal, e ainda que nao creiam, ainda tenho algo de timidez; se não houvesse os amigos, as pernas bambeariam). Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com |