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De letras e música
Conheço três escritores daqui da terrinha que não gostam de música. Ou melhor: eles gostam de música clássica ou, pelo menos, instrumental. O primeiro entre estes, há mais de trinta anos, acusou-me de “mau ledor de poesia” ao notar que eu gostava de MPB – afinal, era o tempo em que letras de música eram instrumentos de nossa insatisfação com o regime; e, paralelamente, eu gostava de letras poéticas e românticas. O segundo tem um postura interessante: nunca o vi a curtir alguma música, a comentar uma letra ou mesmo a fazer fundo musical – por exemplo, nas viagens de carro, que viajamos juntos algumas vezes – para a conversa. Dele ouvi que música, diretamente, não lhe diz respeito, prefere outras manifestações de arte. E o terceiro, este limita-se apenas à música que chamamos clássica. Para ele, a música prescinde naturalmente de letra e letras de música é um péssimo poema que pede apoio a outra arte. Dos três, cultivo amizade com apenas um. Um desses aí, que conheci há quase meio século, entre os muros e as salas de aulas do Liceu, sempre me dedicou olhares discriminatórios e sua simpatia não me faz falta; um outro, a quem tomei por amigo há uns quarenta anos, merecerá de mim artigo especial a qualquer momento. Inclui-se entre aqueles animais de péssima memória, incapazes de reconhecer, num circo ou num zoológico, o próprio tratador (a pessoa que lhes traz comida). O segundo é, entre os três, alguém de quem ainda aceito o tratamento de amigo, embora guarde anos de silenciosa ausência. Bem, o parágrafo anterior é quase que desnecessário aqui; escrevi-o apenas como um desabafo e um modo discreto de justificar a omissão dos nomes; sobre os desafetos, esclareço que aprendi com Carmo Bernardes que nem todo mundo merece ter seu nome escrito em letra de fôrma; e o que está salvo em meu critério é omitido para dificultar a identificação dos pulhas. Não tratarei aqui do mérito das letras de música. Muitas delas são poemas perfeitos; andariam sozinhas como obras de finíssima literatura, mas enriquecem as melodias ou fazem belos pares com estas. Outras há que não sobreviveriam sem o acasalamento com a melodia. Portanto, grande parte do que temos como música popular reveste-se de predicados para ser tratada como arte. Mas o que temos agora... Nas duas últimas décadas, vivemos um período triste para o cancioneiro nacional. Coincide com o tempo de redemocratização – como se nossos azes da canção só produzissem bem quando oprimidos. Mas não é (só) isso: ao que tudo indica, a máquina da indústria musical centrou baterias em torno da produção
comercial. Daí a proliferação das duplas ditas sertanejas (e que de sertão nada têm) e dos pagodes em que (nos dois casos) qualidade melódica ou de textos é o que menos conta. A isso, sim, não se pode chamar de arte, mas de “empreendimento no ramo musical”. Empreendedorismo... Aliás, empreendedorismo é uma palavrinha bem mal concebida, hem? Se a coisa se refere a “empreender”, deveria derivar daí, e não de outra derivada, que é “empreendedor”. Mas é da moda destes últimos vinte anos inventar palavras, ao mesmo tempo em que as massas se deixam levar pela mídia que superlota xous de uma menino cantor que diz “um beijo fala mais que mil palavras / Um toque é bem mais que poesia”. O primeiro verso cai bem, mas o segundo… Bem, a letra inteira, e a música em seu todo, são de gosto duvidoso. Ou sofrível, como diria um velho mestre meu, sempre com o cuidado de não ofender. Mas porque devo eu não ofender o jovem e muito bem pago cantor (respeito-o, e lamento que a máquina financeira faça dele um boi de exposição), se ele não respeita meus ouvidos? Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras |