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Ditadores E Patriotas Osama, Obama, Mubarak, Mahmoud Ahmadinejad… Nomes internacionais em voga, ou melhor, na moda da mídia! No decorrer da campanha eleitoral do ano passado, a direita pró-José Serra acusava o presidente Lula de ser simpático – ou mesmo amigo – do presidente déspota nada esclarecido do Iran. Mas essa mesma direita jamais reclamou das relações do governo brasileiro com a mais sangrenta das ditaduras atuais, a da China. Suponho que, como era nos anos de 1950, essa gente que se posiciona contrária aos programas sociais que beneficiam os pobres apenas repete os sons e as imagens que vêm do Norte; para eles, tio-sam é a Marta Rocha dos vovôs de agora, a belíssima Cléo Pires nesta geração: um ícone irrefutável! Os “irmãos do norte” ficaram tão ricos que mesmo as profissões mais humildes – na visão dos preconceituosos escravagistas nacionais – tornaram-se, para eles, funções de realce; as profissões que os nativos dos EUA se recusavam a exercer ficaram para os imigrantes chineses, italianos e... latinos – epíteto para generalizar todo cidadão americano que não tenha o inglês como língua máter. Tudo isso eu digo para situar a análise dos burgueses nacionais contra um governo popular. Para mim, Lula foi tão bom ou tão ruim quanto seus antecessores (destes, não listo os militares; para mim, os generais golpistas exerceram missões de comando, não foram propriamente estadistas; militares com “visões” políticas sempre deram golpes, foi assim que chegamos à República). O erro internacional de Lula foi criar laços de amizade com Chaves, Evo e Mahmoud Ahmadinejad. Com os chineses, não; estes são famosos por infringir medidas que visam a assegurar o que se tem como “direitos humanos”. Ditadores da China são bem aceitos pelos Isteites... Chaves e Evo, não: latinos, têm caras de mestiços, são de raça inferior. Ahmadinejad é terrorista, fala-se que constrói bomba atômica. Mas a China protege a Coréia do Norte, que tornou público seu propósito de construir armas nucleares e ataca a Coréia do Sul, além de desacatar a (ainda) maior potência econômica e bélica da atualidade. E aí, vemos a ação decidida dos jovens egípcios. Cansados de conhecer apenas um governante em toda a sua vida, dois terços da população do Egito ocupou as ruas. O ditador estava no cargo há apenas 31 anos. Sim: trinta e um! O general sem farda cuidou de construir sua morada no meio dos quartéis generais das três forças armadas e da polícia, certamente supondo que ali morreria aos cento e tantos anos, ainda no poder. Sua polícia pareceu, durante os conflitos urbanos, uma quadrilha de salteadores, inimigos dos que não usam fardas. No terceiro ou quarto dia, dispersou agentes à paisana para bater de frente com os contrários, como se os policiais disfarçados fossem seguidores ideológicos do regime. Surpreendente, mesmo, foi ouvir Barak Obama referir-se a Mubarak como “um patriota”. Só se for um patriota norte-americano governando um país “amigo”. Como se vê, amizade entre governos não é o mesmo que amizade entre pessoas. “Nação amiga”, no linguajar dos mais poderosos é “nação que nos serve”. Sabemos, hoje, que as ditaduras militares em toda a América Latina, nas décadas de 1960 e 1970, foram idealizadas e patrocinadas pelo capital da “maior democracia” (só para eles; para nós outros, ditadura!). Bem: os EUA liberaram a América; e governos antipáticos, como o da Colômbia e o da Bolívia, são, para eles, ditaduras. Até que ponto isso interessa a nós, brasileiros? Chaves montou, sim, um curioso sistema “democrático” pelo qual ele se reelege indefinidamente, com a cobertura das armas e do seu parlamento, tal como Mubarak fazia há mais de trinta anos – mas Mubarak é patriota, Chaves não. Os generais brasileiros também criaram um modo de disfarçar a ditadura ante o “concerto das nações”, mantendo o Congresso aberto e funcionando, a Justiça agindo e as eleições acontecendo; os governos eram “eleitos” indiretamente – tudo isso sob seu rígido controle. Não fosse a vigília dos artistas e dos intelectuais, teriam burlado a história; a receita, no papel, dizia haver eleições populares para os parlamentos em três níveis; parlamentares elegeriam os Executivos... Só não contavam que os suspeitos de lhe serem contrários eram impedidos de se candidatar. Em suma, vejo que o mundo do Alcorão está despertando para a realidade dos nossos dias. A mão de ferro do ditador do Iran parece enferrujar; a pretensão chechena de surgir como nação islâmica pode ser um equívoco pela ideologia religiosa (é certo que viver sob o jugo de um regime igualmente sanguinário, como o russo, não é lá coisa que agrade). O dinheiro no mundo democratiza-se rapidamente e nações até há bem pouco tempo esquecidas surgem como os novos poderes do século – e voltamos à velha e, até aqui, silenciosa China… No nosso íntimo, continua a dúvida... Mubarak é mesmo um patriota egípcio? Considero que nenhum ditador, em língua nenhuma, é patriota. Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor, membro da Academia Goiânia de Letras. Escreve aos domingos neste espaço. |