Luiz de Aquino Alves Neto

Educação, Aborto E Economia

Dados de uma pesquisa da Universidade de Brasília, a UnB, e do Instituto de Bioética, Direitos Humanos  e Gênero, o Anis, revelam números novos e surpreendentes sobre a prática de aborto no Brasil. Claro, a pesquisa abrangeu também o aborto clandestino (se é que incluiu o aborto legal, nas condições preconizadas em lei).

Vamos ver: foram ouvidas duas mil e duas mulheres, entre 18 e 39 anos, todas alfabetizadas e 81% têm filhos. As pessoas ouvidas moram em capitais brasileiras e ficou claro, dentre outras coisas, que o Nordeste é líder na prática; no Sul, registra-se índice menor. Revelação: o aborto é praticado por mulheres de idades mais elevadas, embora se acreditasse que o hábito era dominante entre as mais jovens.  Outra surpresa é que não são as mulheres sozinhas as que mais abortam: 60% têm companheiros.

Dado impactante: entre cada 100 brasileiras, pelo menos 15 já fizeram aborto, na média. E o percentual passa para 20% na faixa entre 35 e 39 anos. Revelou ainda, a pesquisa, que 48% das mulheres consultadas usaram remédios para interromper a gravidez e, destas, 55% precisaram ser internadas em seguida.

Números de pesquisas são sempre interessantes. Não consigo entender a razão de se estabelecer um número “quebrado”, como 2.002. E isso não é “cabalístico” (aleatório), mas eleito dentre de critérios técnicos, disse-me um profissional de pesquisas. A revelação desses números desperta o imaginário quando acompanhada de informações sobre a escolaridade (quanto maior a escolaridade, menor a incidência da prática) e a faixa econômica (não localizei o percentual na mídia escrita, mas ouvi no rádio que a incidência diminui também quanto mais elevado seja o nível de instrução).

Uma profissional nitidamente simpatizante da liberação argumenta com trunfos de economista: melhor seria o Estado liberar e mesmo patrocinar o procedimento, em lugar de gastar recursos dos fundos de saúde, pois, no geral, todo aborto implica uma internação posterior. Outro argumento: “São cinco milhões de mulheres”, informou, como dado complementar, a profissional que detalhava a pesquisa, analisando-a. “Sendo o aborto um crime, segundo a Lei, o Brasil não dispõe de cadeia para tanta gente”. Em suma: se o Estado tem que gastar com quem pratica o aborto e também com presídios – desde a construção até a assistência total aos presos -, melhor mesmo é liberar, disse ela. Estranhamente, não a ouvi valer-se do referencial de que a escolaridade maior implica menor incidência de aborto.

Óbvio: mulher esclarecida sabe proteger-se. E proteger-se implica também evitar doenças transmitidas pelo sexo. Para mim, se a escolaridade significa menos abortos, vamos investir em educação e orientação sexual, tanto nas escolas como em família e na mídia (campanhas educativas e esclarecedoras).

Tem mais: os analistas não trouxeram aos veículos de imprensa uma apreciação que me pareceu muito importante: o fato de a maioria das que já interromperam intencionalmente a gravidez sejam mulheres casadas. Entendi que os motivos mais imediatos são as dificuldades materiais e financeiras, mas também não se pode ignorar que o emocional tenha uma influência direta: casais em desajustes (a mulher prefere estancar o tamanho da família) e ainda a tal de infidelidade (não concordo com essa definição, mas é a corriqueira): se o bebê não se parecer com o companheiro de convívio, um drama se anuncia no horizonte.

Diante disso, ocorre-me o que dizem inúmeras mulheres ante a ocorrência de gravidez em condições não previstas. Segundo elas, isso é muito raro, porque cabe à mulher prevenir. No geral, a mulher sabe de seus períodos e as que não os tem bem definidos aprendem a organizar-se, prevenir-se. Claro, a gente sabe, existem moças liberadas por aí que fazem do aborto uma prática de sobrevivência.  Por outro lado, o parceiro precisa, ele próprio, conversar com a parceira sobre os riscos imediatos. Nos casos de relações sem compromissos maiores, é importante ater-se às doenças sexualmente transmissíveis e é importantíssimo, também, que se fale sobre uma possível gravidez.

Ou o sujeito é menos sensível, como pai, que um cão de rua. 

Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

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