Luiz de Aquino Alves Neto

  Educação E Crescimento

Fui escolhido, na Academia Goiana de Letras, para saudar o estudante Aurélio Sampaio Carrilho de Castro Póvoa, o vencedor do concurso “Soletrando”, do programa Caldeirão do Huck, na TV Globo. E do discurso, pincei este trecho:

“Quem aprende bem a língua, aprende qualquer coisa. Já disse, e disse isso no tempo em que fazia faculdade, há uns quarenta anos, que os vestibulares deviam se constituir apenas numa boa prova de Língua Portuguesa, com avaliação de gramática: ortografia, regência, concordância... E, para consagrar essa avaliação, de modo a se notar que o aluno candidato não colou, uma redação. A redação demonstra se o cidadão tem raciocínio lógico; se desenvolve suas idéias de modo claro; se é criativo. Com um pouco mais de sensibilidade, o avaliador poderá perceber, na redação, até mesmo lampejos do caráter do candidato”.

Sou avesso às competições, senão as esportivas. Mas sei que a gente compete todos os dias, embora prefira não ter nas disputas determinantes em tudo e para tudo. Gosto é de imaginar as sociedades futuras pautadas nas relações solidárias:

Defendo, por isso, a grade curricular do Ensino Médio voltada muito mais para a formação humanística do cidadão. Ciências biológicas e exatas, no Ensino Médio, deviam centrar-se na vida quotidiana: biologia voltada para a Higiene e a Saúde; matemática e física com análises e aplicações na prática de todos os mortais comuns, em lugares de fórmulas mirabolantes (...)”.

Dá para se notar que, ao preparar a fala, fiquei no óbvio: senti que devia falar de educação e, inevitavelmente, de cidadania. É que, mesmo tendo visto apenas dois programas (o primeiro e o último), pude sentir que o concurso no Caldeirão do Huck saiu do trivial. Soletrar é algo meio que titibitati, chato, etc.; mas a produção soube bem conduzir a coisa e não houve enfado. Além do mais, a presença de um professor de excelente gabarito fez subir bem a qualidade (pena que o mesmo não consiga erradicar errinhos triviais da parte de alguns jornalistas e apresentadores da tevê como “há dez anos atrás”, entre outros).

O lado positivo, nisso aí, foi demonstrar que há ainda, no Brasil, ilhas de qualidade no falido ensino público. E que, com vontade e alguns recursos, é possível restaurar essa qualidade. Afinal, os professores da rede privada são, em boa parte, os mesmos do ensino público. Com as verbas devidamente entregues e aplicadas com critério, voltar-se-á ao tempo em que bons alunos iam para as escolas públicas; os fracos teriam de pagar. Talvez acontecesse boicote à rede pública. Então, com a disposição de fazer valer direitos, as ruas seriam poucas para as manifestações legítimas de resistência.

Isso também é cidadania.

E, diante do quadro emergencial que exige do Estado Brasileiro uma educação pública de alta qualidade, para que tenhamos, em poucas décadas, uma Nação da mais alta qualidade social, vou além: apelo para as autoridades da Educação e o Congresso Nacional para que modifiquem, com urgência, o perfil do ensino médio:

Defendo também uma medida urgentíssima ante as autoridades da Educação brasileira: que todos os cursos superiores nacionais, civis e militares, sejam acrescidos de disciplinas pedagógicas, de modo a conceder, a todo portador de diploma superior, o grau de licenciatura. Esta Nação precisa de professores. E todos nós podemos e devemos ser professores. Exigem-nos diplomas que nos habilitem profissionalmente, mas é preciso até mesmo “diplomar” os pais, pois são estes os primeiros educadores”.

Vale a pena pensar nisso.

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