Luiz de Aquino Alves Neto

 Enfim, toda a família

Gosto de novelas. Não de todas, mas das bem engendradas, das que me passam tramas pitorescas... Gosto de comédias. Não gosto de novelas com dramas duros, ásperos, dolorosos, como A Favorita; prefiro a doçura de Beleza Pura, a partir das músicas brasileiras da trilha. Mas não pude ver o final de Beleza Pura, pois sexta-feira é dia de chorinho na calçada do Grande Hotel; então, deixei para o sábado. Mas não tive como... O sábado foi dia de uma grande e feliz surpresa.

Lembram do ditado? Não há mal que sempre dure: sábado, 13, setembro: meu filho Leonardo chegou a Goiânia, de surpresa, depois de oito anos, dez meses e sete dias vivendo nos Estados Unidos. Com ele, minha nora Ethel e meu neto Gabriel (se três meses e poucos dias). Dia 14, aniversário do Léo; dia 15, o meu. Então, vivemos três dias de festas. Mas ainda estou em estado de alegria, e esta alegria, para mim e toda a família, não tem igual.

No meio desta longa festa, parei para pensar no riso e na dor. Imaginei que a vida, na complexidade dos fatos e dos sentimentos, é um caleidoscópio: o verde e o laranja convivem harmonicamente com o roxo e o amarelo. Lembrei-me de do maestro poeta Antônio Carlos Brasileiro, mais conhecido como Tom Jobim, ao compor "Luiza":
"Como um brilhante que partindo a luz
explode em sete cores..."

Revivi a dor de ver na tevê a viúva e os pais do jovem bacharel assassinado de modo cruel e leviano por um soldado, por ordem de um cabo, no Jardim América. Lembrei-me de ver o soldado sorridente, um dia ou dois após a "façanha", passando por cima da dor da família vitimada. Pais jovens, viúva menina e o bebê recém batizado. E o soldado ria, vitorioso.

É muito fácil sorrir quando a dor é dos outros. Mas recordo meu tempo de repórter policial, quando acompanhei o menino João Cambão ser morto pela mesma PM da qual fazia parte seu pai. Cambão, assaltante e assassino, passou a integrara aquela estatística dos anos finais da ditadura, quando órgãos policiais eliminavam marginais tidos como irrecuperáveis, ainda que sem julgamento. A PM, em que sempre confio e quero continuar confiando, infelizmente tem tons de cor estranha no seu espectro. Esse soldado e esse cabo, parece, são desse tipo, são tons fora do tom.

Pois é! Enquanto doía na família de Pedro Henrique a dor de sua ausência definitiva, eu me regozijava no reencontro com o Léo e o fato de acolher Ethel e o bebê Gabriel. É o caleidoscópio a girar, sim. Mas eu estava feliz, eu estou feliz. Só que a felicidade não me exime da responsabilidade de cobrar das autoridades. É triste ouvirmos de alguns coronéis o conceito de "fatalidade" para esse crime; ou de outros oficiais o conceito de que há uma "suposta responsabilidade dos dois militares na morte do bacharel". Ora, ora...

Volto aos meus.
Imaginem: a cada dia, pelo menos uma vez a cada dia, nestes quase nove anos, uma angústia tentava me derrotar: eu imaginava nunca mais ver meu filho. Certo que os tempos são outros, mas lembrei-me de meu avô que, ao vir para o Brasil, aos 19 anos, rompeu definitivamente com as chances de rever pais e irmãos. Cheguei a dar-me a chance de rever conceitos e fobias: eu já me convencia a ir à terra do tio-sam. Afinal, precisava conhecer o Gabriel. Só que, para mim, as coisas correram de modo melhor. Leonardo resistiu: ele viu Bush ascender à presidência dos EUA; viu o terror no atentado às torres; viu o país preparar-se e ir à guerra, a segunda guerra do Golfo. E viu o novo crash econômico. E decidiu voltar.

Ainda bem. Bom que veio. Lugar de brasileiro é no Brasil E Gabriel, nos seus três meses de vida, vestia um macaquinho com a inscrição: "Born in the United States". Meus outros filhos (Elia Maria, Fernando e Lucas), mais meu primeiro neto, Luiz Henrique, sabedores da minha rejeição à língua estrangeira em coisas simples, como camisas, e mais ainda desse suposto regozijo pelo fato de o guri ter nascido lá, olharam-me desafiadores. Antes que perguntassem, complementei a frase:
– Tudo bem, nascido lá; mas é goiano do pé-rachado, comedor de pequi e torcedor do Vila Nova. E tenho dito! (Como se vê, até como avô eu sou brabo, rs).

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