Luiz de Aquino Alves Neto

 Era amor. Ou quase

Era 1961 e era outro o Rio de Janeiro. Com certeza, diria algum de nós se tivéssemos, hoje, aquela idade. Será que éramos outros, também? Sim, éramos: era outra a cidade, outros os tempos, outras as expressões coloquiais e nós próprios tínhamos outros conceitos – outras cabeças. O uniforme do Colégio Pedro II era calça ou saia, conforme o caso, azul marinho; camisa militar bege, gravata azul marinho, meias pretas para os meninos, meias brancas para as meninas. O emblema do colégio, ostentando uma barra para cada série do ginásio ou uma estrela para cada ano colegial, era aplicado no braço esquerdo. Sapatos sempre pretos, mas os cintos eram em cor de caramelo. No ano seguinte, trocaríamos as camisas militares por blusas brancas e a gravata, de início em azul claro, seria abolida. É quase impossível esquecer a sensação de grandeza de que nos apossávamos quando no quarto ano do ginásio. Tínhamos entre 15 e 17 anos, mas éramos todos convictos de ser adultos: apaixonávamos, freqüentávamos bailes, programávamos passeios e encontros – tudo numa postura de independência descabida, como se realmente decidíssemos nossos destinos. 

Tive duas paixões, naquele ano. Uma era a mocinha magra e sardenta de olhos claros, morava em Madureira e se chamava Lea – pouco importa, agora, pois que o momento é de falar da outra paixão, a que, como todas as demais que vivi antes e depois e que pelas quais sempre achava que morreria, tirou-me o sono em longas e memoráveis noites. Chamava-se – chama, penso eu; e deve ser uma senhora muito bonita – Rosália Maria Cortes Perissé e morava em Santa Teresa, no número 41 da Rua Eliseu Visconti. 

Tinha primas e uma irmã mais velha e formávamos grupos, moças e rapazes, para ir a bailes no colégio ou no Montanha Clube, na Tijuca. Festa acabada, pegávamos bondes e esperávamos o sol nascer da varanda de sua casa, debruçada sobre a paisagem maravilhosa de uma cidade que, se não é feitiço, é fetiche. Descia de carro do Corcovado, dia destes. Em lugar de retornar ao Cosme Velho – o imortal bairro de Machado de Assis –, preferi tomar o rumo de Santa Teresa, seguindo os trilhos. 

A saudade fez uma fisgada desde a garganta até o baixo ventre quando li a placa esmaltada, campo azul e letras brandas, dizendo que aquele era o Largo do França e a minúscula rua em viés não era outra senão a Eliseu Visconti. Lembrei nosso último baile, a minha terceira investida, esperançoso de namorar Rosália. Então já era 1963 e eu voltaria para Goiás em julho. Janeiro de 1964, Paschoal Carlos Magno (diretor do Instituto Nacional de Teatro) promoveu a Caravana da Cultura e convidou Otavinho Arantes e sua trupe – lá fui eu, ao lado de Zanilda, Mário Alberto, Sidney Santos e tantos outros. Primeira parada: Além Paraíba, na divisa de Minas com o Estado do Rio. Rosália era de lá e assim que o ônibus parou perguntei a um moço se a conhecia. Coincidência: ele a conhecia, era seu primo, mas a moça partira naquela manhã para o Rio, ia cuidar de papéis no colégio. Na viagem de volta, esta semana, dois dias após o passeio pela trilha do bonde em Santa Tereza, avistei na BR-040 a placa indicando, seta à esquerda: “Além Paraíba”. A saudade bateu de novo, outra vez doída, 38 anos depois. Houve, naqueles verdes anos, muitas paixões. Mas aquela, eu acho, era amor. Ou quase.

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