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Estágio De Adeus A importância da poesia está na razão direta do valor da palavra. A elegância no vestir é tão imediata quanto a necessidade de se vestir. São proporções da mesma razão. Os tolos abominam tais cuidados, dizem-nos futilidades femininas (como se as coisas femininas nada valessem, quando são elas as determinantes na vida humana); mas traem-se nos torcicolos adquiridos e na inveja aos que os suplantam em boa-aparência (no item indumentária) e em inteligência (no outro). Os que trabalham “por objetivos” não gastam comprando livros, sejam de ficção ou poesia, mas empenham-se no corte dos ternos e na harmonia das cores (das cuecas às gravatas). Teriam, estes, melhores resultados se empregassem poetas como assessores que lhe dessem boas qualidades em textos finais e, inevitavelmente, ideias de como investir, aplicar, agir e colher. Em curto intervalo, a Academia Goiana de Letras registrou a passagem de dois poetas para outra dimensão: Helvécio Goulart, mineiro ao nascer e goiano de vivência, advogado e poeta, acadêmico desde 1997; e A. G. Ramos Jubé, vilaboense, procurador de Justiça e professor (licenciado em Letras Neolatinas). Poetas de refinado talento, cultores de uma indisfarçável idolatria à Língua e ao ofício do verso. De ambos pincei versos a esmo. Recordar um poeta, para mim, é visitar seus escritos como quem lança os olhos ao horizonte, ao céu e ao fundo do vale próximo, inspirando o ar renovado e enchendo-se das cores da vida. Nunca, em momentos assim, vou especificamente a um poema; abraço-lhes os livros como quem afaga o amigo, e vejo poemas como quem, num microscópio panorâmico (seria possível isso?), vislumbrasse poros de toda a pele... Helvécio (que nos deixou no dia 19 de novembro), escreveu como quem prenunciasse:
Peço perdão porque eu não podia
morrer naquela hora, Parei diante dessa estrofe de “Os cavalos” como quem estanca em face da luz ao fim da madrugada. O poeta, parece, justificava ter vivido um pouco mais, porém fica em mim a sensação de que deveria, ele, aguardar duas décadas mais, ao menos. Tinha, ainda muita poesia a cometer. De Jubé, o homem que, para mim, melhor simboliza a humildade entre os goianos, guardo a espontaneidade da saudação de sempre, uma vociferante alegria de encontro, um cumprimentar como quem nos descobre. A cidade (sempre a cidade) não tem consciência deste vazio. Para a Academia, está vaga a Cadeira 40, por breve tempo. Para a cidade, a partida de Jubé equivale a um breve corte em sua alma perceptível, porque os anos a vir dirão aos pósteros o valor do poeta Jubé. Dele, delicio-me agora com um poema em especial: “Bairro Botafogo”. É preciso contar aos mais jovens, os que não sabem dizer onde existe um Bairro Botafogo em Goiânia, que o nome precede ao que hoje conhecemos como Setor Universitário: BAIRRO BOTAFOGO
De tardezinha o bairro fica melancólico.
As casinhas, brancas, espiam humildemente
Nada agita a paisagem parada, Ah, os ignorados dramas da pobreza!...
Os buritis estão pálidos, Fecho os livros como quem agradece. E até parece que agradecer me satisfaz! Que eles viajem aos páramos da Eternidade, deixando-nos seus imortais poemas. Talvez os desenhemos em bronze num jardim público, talvez escrevamos seus nomes na fachadas de escolas ou museus, talvez... Talvez a gente morra logo após. Certo é que suas obras alicerçam-se nos discursos dos anjos. Amém!
Luiz de Aquino,
escritor de prosa e poesia, é membro efetivo da Academia Goiana de Letras,
ocupante da Cadeira nº 10). |