Luiz de Aquino Alves Neto

Fala Aos Mestres

Até onde minha memória me permite ir, encontro falas de adultos da época a propósito de Educação. “A criança é o futuro do Brasil”, diziam os grandes, repetindo falas ouvidas no rádio e fazendo eco às vozes das professoras. Na minha pequenina Caldas Novas, um ginásio estadual se fez lá por 1963. Levou o nome do ministro da Educação, Júlio Sambaqui, mas teve a placa inaugural removida em movimento “cívico” liderado por líderes do PSD e da UDN, em indisfarçável postura áulica para com a “redentora”, ou seja, o golpe militar de 1964.

Até então, tudo se resumia ao Grupo Escolar e à Escolinha de Dona Vanda Rodrigues da Cunha, em cujo colo aprendi o abecedário e a formar sílabas, soletrar e ler e escrever. Quem tinha poder financeiro, mandava os filhos para algum colégio interno. Eu tive a sorte de ter familiares de minha mãe no Rio de Janeiro e para lá fui enviado para continuar os estudos após receber o certificado do primário.

Goiânia, em 1960, com cerca de 200 mil habitantes, dava-se ao luxo de contar com duas universidades – a Universidade de Goiás, que se tornou Universidade Católica de Goiás e que hoje é PUC, e a Universidade Federal de Goiás. Havia a Escola Superior de Educação Física, a ESEFEGO, embrião da Universidade Estadual de Goiás. E nasceu a Faculdade Anhanguera, hoje Centro Universitário. Essas instituições, berços da graduação deste nosso pequeno grande universo de profissionais, geraram condições para, hoje, o Estado de Goiás ser dotado de tantos núcleos de formação superior.

Apareceu, também, por aqui (como em todo o país), uma nova modalidade – a das instituições que se expandem sobre o território brasileiro, oferecendo cursos vários já reconhecidos, sobretudo na área de Humanas. E ainda assim o Brasil continua com carência de professores, porque a política de estímulos para a profissão não se mostra. O resultado é uma inversão de papéis: pessoas que se formam com licenciatura, mas nunca assumem suas cátedras, pois os salários são desanimadores; e profissionais de outras áreas, sem qualquer conhecimento da área pedagógica a ministrar o que chamam de aulas e sequer chegam a ser palestras sofríveis.

Resumo da pantomima: a formação de profissionais tão-somente aptos em seus segmentos de trabalho. A cultura geral sumiu. Profissionais com menos de trinta anos, hoje, não conseguem manter uma conversação com pessoas de fora do seu grupo de formação. Há vendedores, pasmem!, que sequer saber conversar com a clientela – somente com seus colegas.

No domingo, 7 de março, a poucas horas do festivo Dia Internacional da Mulher, tive a alegria de falar para cerca de cento e vinte formandos (licenciatura) de várias áreas da UVA – Universidade Estadual Vale do Acaraú. Quase nada falta para que ponham as mãos em seus diplomas e boa parte deles já exerce o ensino, tal como eu também vivi – ensinando enquanto aprendia, trocando ensinamentos e aprendizados, trocando entre os colégios e a Universidade informações preciosas, aprendendo mais que ensinando, sendo instrumentos de formação e crescimento de meninos e adolescentes.

Senti o entusiasmo daqueles jovens ensinantes, pré-professores. Lembrei-me que os militares bombeiros e policiais de todo o país estão prestes a conquistar salários expressivos, algo como R$ 4 mil para soldados e R$ 7 mil para tenentes, e sugeri-lhes que, ante a realidade atual, um salário de primeiro sargento seria boa paga para professores em todo o país.

Um sonho, não é? Mas os mais velhos que eu contam que por volta de 1950 o salário de um professor do Liceu era comparado ao de um coronel da PM. Decano de todos nós, o professor Egídio Turchi deixou de ser desembargador para lecionar no Liceu, os salários eram iguais. E outro mestre da antiga, o saudoso professor Genesco Bretas, trocou o cargo de diretor regional dos Correios pelo de professor, também.

Meu carinho aos novos professores, essa juventude entusiasmada da UVA. Espero que meus recados e experiências lhes tenham valido de algo. Abraços às professoras Maria Luiza de Carvalho, psicóloga que tão bem tratou o tema da inclusão, e Vitória Régia Landin Carrilho, reitora da UVA em Goiás.

(Afinal, os professores também precisam ser incluídos; com carinho e justiça).

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com

voltar