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Falar Do Beijo Sonhado “Falava de sonhar com um beijo, / um beijo para se sonhar levitando / e saber-me num campo, / sobre o campo verde, / pairando sobre o verdor da relva e de árvores / onde me sentir protegido / porque ao natural saberei sempre amar mais, / amar demais / e demais me entorpecer dos teus lábios” / (...). Era eu a poetizar um sonho, não me lembro se onírico ou da materialização de alguma Musa. Escrevia ao teclado, no exercício da mais nova ferramenta de escrita e comunicação que jamais sonhava estar sob meus dedos. Uma amiga, leitora especial, afeita a versos e sentimentos, interrompe-me ao perguntar o que fazia. Lacônico respondi “um poema”. Debalde, não obtive a licença para concluir o texto, mas um pedido: “Posso acompanhar? Passe-me cada verso... Ou cada estrofe”. Optei pelas estrofes.
“Um beijo
para estrear-me aos teus olhos, / ao teu calor, / ébrio da tua pele / e
sujeito a me queimar ante teu olhar. / Beijo de expectativa plena, / beijo
de excitar sempre, /provocar o não-medo do cotidiano, das convenções. /
Despertar a inconseqüência, / o non-sense, a coragem maior Iara retornava sem comentário crítico.. Preferia duas ou uma palavra com interjeição. E assim, passei-lhe, uma a uma, e sem revisão, cada estrofe concluída.
“Pouco
importa se estamos de peles nuas, / pouco importa se meus pés buscam os
teus, / que beijarei como se lábios fossem. /... / Pouco importa se nossos
sexos se atraem / e se buscam e se completam. / Pouco importa os orgasmos
simultâneos, / os que em ti me antecedem. Esse poema publiquei-o no livro “Sarau”, em 2003. Aqui, substituí alguns trechos por reticências entre parênteses. O importante, hoje, não é o poema em si, mas o fato de construí-lo, ainda que interrompido por uma amiga muito querida que jamais conheci pessoalmente. Discorríamos sobre coisas de Goiás (ela era vila-boense, de família tradicional). As chances que nos demos para o encontro sempre fracassado ainda estão na minha memória, e a esperança me diz que a encontrarei, sim, do lado de lá, e sem dúvida declamaremos em dueto o poema que, ao dar por findo, foi selado com uma expressiva frase de duas palavras (dela): “É meu!”. Concordei... Meus eram o sonho e o poema em letras, palavras e estrofes. Dela, o momento. E fundimos nossas posses, porque o sonho sugeriu o texto, o momento o possibilitou. É nosso, sim, Iara! Sonhemos mais. Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com. |