|
|
|
Falas Infantis Nas últimas semanas, que não são poucas, tenho ouvido e lido muitos comentários a propósito da minha condição de avô de novo. Explico, para quem ainda não sabe: meu primeiro neto, o Luiz Henrique, já se aproxima do 13º aniversário; e o outro, Gabriel, tem apenas seis meses, completados neste dia 2 de dezembro. E aí, ostentei minhas páginas de Internet com fotos do rebento de Ethel e Léo. E não faltam frases carinhosas, na linha de "Olá, vô coruja" ou "Vô babão!", ao que sempre respondo feliz: se a paternidade nos enche de alegria e apreensão, o avonato nos traz muita alegria. Em ambos os estágios, as emoções vêm à flor da pele. Mas não é de baba de avô que quero falar, não; é da minha paixão por crianças. Isso me acompanha desde as minhas mais remotas lembranças. Com o tempo, a experiência de ser pai muito moço e de ter escolhido ser professor dotou-me de peculiaridades muito apropriadas no trato com os pequenos. Tenho um prazer enorme em provocar as inteligências tenras e virgens, forçar-lhes maquinações admiráveis, ver os petizes (puxa! Essa palavra veio de graça... pincei-a no fundo dos arquivos da memória) cometendo deduções e, muitas vezes, criando palavras com a sua lógica muito própria. Quando Lucas era pequenino, aí pelos três anos, proferiu sua primeira bronca contra o sobrinho, apenas oito meses mais novo: "Luiz Henrique, sai da minha atrás". Tentei corrigi-lo, mas ele defendeu seu pensamento: "Se ele estivesse aqui (mostrou uma posição imaginária) era a minha frente; então, é minha atrás, sim". E Luiz Henrique, por sua vez, ali pelos seis anos, viu-me curtindo antigos discos LP: "Ó, vô, onde você arrumou esse cedezão preto?". Quando não são palavras novas, são situações. Minha sobrinha Leda, mãe da Giovana, ficou grávida. Isso enche a filha única (por enquanto) de alegria; Giovana não se separa do resultado do exame de ultra-som, mostra-o até ao carteiro e ao entregador de gás: "Olha o meu irmão aqui", diz ela. Mas a Bárbara... Bem, a Bárbara tem excelente raciocínio e muita fluência verbal. Conta casos, inventa histórias, argumenta de modo irretorquível, impõe-se e convence, apesar de ainda contar apenas três anos. Obviamente, já se desponta com certa liderança na escola, qualifica os coleguinhas, define personalidades... Não dos amiguinhos da escola, mas dos pais. Bárbara sabe, por exemplo, que o pai, responsável direto pela sua eloqüência oral, é aquele a quem ela domina. Dele, consegue praticamente tudo, até mesmo um passeio ao zoológico com amigas, a quem o pai tem de buscar e levar de volta, em percursos (de ida e volta) de uns trinta ou quarenta quilômetros. A pequenina tem tanta certeza do domínio sobre o pai que, em seus programas (sim: ela é quem estabelece aonde ir), seleciona: "Mamãezinha, você vai não; só o papaizinho e eu, tá bom?". Pois é... e tem o "tá bom?" ao final das frases. Dia desses, Lucas conversava com o papaizinho dela; Bárbara não gostou e deu a bronca: "Lucas! Vai conversar com o seu papai, tá bom?". Há algumas semanas, a família (são só os três; acho que Bárbara, como a Giovana, está na hora de ganhar um irmãozinho) foi à Cidade de Goiás. Bárbara saiu de casa emburrada, não queria a mãe por perto, e isso se explica facilmente: o pai lhe faz todas as vontades, enquanto a mãe tenta impor limites. Muitos minutos de travessia da cidade, cerca de cinqüenta quilômetros de rodovia, o pai lhe diz: – Bárbara, estamos em Itauçu. A miúda menina destrinchou a palavra em duas, tal como ouviu: – Itaú (e girou a mãozinha, lembrando a propaganda do banco na tevê, desenhando um i com uma linha em torno da letra). E repetiu: – Itaú-çu. Ó, papaizinho, onde fica Itaú-norte? Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com |