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Luiz de Aquino Alves Neto
Um motorista foi alvo de
cinco tiros desferidos por um sujeito numa motocicleta. Destes, o mau
atirador acertou um, outros três pegaram o corpo do moço tangencialmente
e o profissional só está vivo porque o atirador é péssimo de mira,
graças a Deus. Péssimo de mira, de humor e de conduta. É que a causa, ao
que tudo indica, foi uma tola discussão de trânsito, na véspera.
A propósito, existe discussão de trânsito que não seja tola?
Peraí, gente! Que ninguém se ofenda... Eu também não sou santo e não sei
quantas vezes discuti no trânsito. É ruim: a gente cai no ridículo e,
obviamente, corre o risco de levar um tiro, também. E tudo a troco de
quase nada. Vou contar, já, já, a última em que me meti, envolvendo uma
moça. Mas, antes, tenho outras considerações.
As coisas andam erradas; muito erradas. E não é só no trânsito. Nesse
segmento, os erros não são apenas de condutores e andantes, mas também de
autoridades. Notem: de tudo o que o Código de Trânsito Brasileiro exige,
os poderes públicos são os que menos cumpriram sua parte. Cidadão de bem
que pretende agir dentro da lei é impedido pelas circunstâncias várias,
inclusive pela falta de providências que as autoridades deveriam ter
tomado.
Esta semana, Raquel Azeredo mostrou matéria sobre a morte de um estudante
de 17 anos, com um tiro desferido por um colega de escola. Um colega de
classe, se é que o assassino teve alguma classe em sua ação covarde e
irracional. Raquel enfatizou que as escolas não oferecem segurança e os
professores ficam limitados, porque a família não faz a sua parte no que
se refere à educação. Concordo plenamente com Raquel.
Percebo, nos noticiários da tevê, que a imprensa eletrônica (ao menos ela)
parecer querer inculpar totalmente a PM de São Paulo (no caso, o GAT) pela
morte de Eloá, assassinada pelo ex-namorado. Os repórteres e
apresentadores insistem em demonstrar que não houve um tiro que a PM diz
ter ouvido e que motivou a invasão do apartamento, mas várias testemunhas
dizem ter ouvido um estampido, ou algo parecido com um tiro. E o promotor
de Justiça que acompanha o caso deixa claro: o importante é que o moço
Lindemberg agiu premeditadamente, muniu-se de armas e munição bastante
para manter seu plano por longo tempo e ficou nada menos que cem horas
aterrorizando todo mundo. Não sei, mas parece-me que parte da imprensa
quer inocentar o maluco e incriminar a polícia.
Certo: a polícia errou, sim. Já ouvi de muitos especialistas que o prazo
máximo de tolerância não deveria ir além de vinte e quatro horas. Mas
pouca gente chegou perto do que me pareceu mais racional – somente Arnaldo
Jabor criticou o fato de a PM não dispor de micro-câmeras e outros
equipamentos indispensáveis em ações do tipo. Deu para concluir: o pessoal
do GAT é bem preparado, mas muito mal equipado. E, de novo, vejo falhas na
família: que mãe e que pai, em sã consciência, permitem o namoro de uma
menina de 12 anos com um homem de 19? Pois eram essas as idades de Eloá e
Lindemberg, no começo da história.
Mas fiquei de contar minha mais recente discussão no trânsito. Eu vinha
numa rua transversal e, ao cruzar a preferencial onde pretendia entrar à
esquerda, fui forçado a avançar uns metros mais, pois um sujeito parou uma
Kombi bem na curvatura do meio-fio, na esquina. Na preferencial vinha um
Peugeot bem mais novo que o meu velho carrinho. A moça ao volante
conseguiu brecar, depois de uma longa nota aguda proveniente do atrito dos
pneus travados com o asfalto. Abaixei o vidro e lhe pedi desculpas, mas a
loira ficou paralisada, como que em choque. Uns três minutos após, ela
religou o motor, engatou a marcha (com alguma dificuldade) e, antes de
arrancar, pronunciou uma frase longa e ininteligível. A musicalidade da
fala deixou ver que não se tratava de alguém com boa base cultural ou
social. Só entendi as últimas sílabas, algo parecido com "udê". Nesse
momento, respondi-lhe no mesmo tom, mas na minha pronúncia peculiar. Só
que a minha resposta não rimou com a dela. Preferi terminar em U.
Luiz de Aquino é jornalista e
escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail:
poetaluizdeaquino@gmail.com
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